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Posts Tagged ‘vídeo’

Esta é uma música antiga de uma banda católica daqui de Olinda. Ouvi-a por duas vezes nos últimos dias, após anos sem escutá-la: encontrei-a “perdida” no notebook enquanto viajava e soube que ela foi tocada na cerimônia de entrega do prêmio Von Galen a Dom José Cardoso Sobrinho. Grito silencioso, de órfãos inocentes. Gosto dela, é quase uma oração: Grito silencioso, que machuca o coração de Deus; Maria, Mãe da Igreja, roga pelos filhos Seus.

Eles não podem gritar. Nós podemos e, portanto, devemos. O grito de agonia deles enquanto estão sendo assassinados não pode ser ouvido; a nossa voz, sim, esta pode ser ouvida, e precisa sê-la, para que eles não precisem gritar em silêncio no ventre materno. Hoje, muitos preferem se calar, em um silêncio tão grande quanto o daqueles bebês assassinados no ventre, vítimas do Holocausto Silencioso. Ambos os silêncios machucam o coração de Deus: mas o silêncio dos já nascidos é mais grave, porque é covardia, é omissão de quem poderia fazer algo e não faz.

Os inimigos do gênero humano, promotores do aborto, no entanto, não se calam. A Fiocruz produziu um documentário sobre o aborto, que ganhou um prêmio e teve a sua produção financiada com dinheiro público; alguns trechos dele podem ser vistos aqui. “O vídeo, da documentarista Thereza Jessouron, apresenta, pela primeira vez no Brasil, depoimentos de mulheres de idades, classes sociais e estados brasileiros diversos, como Rio de Janeiro, São Paulo e Recife (sic!). Na produção, as entrevistadas falam abertamente, sem esconder o rosto nem a identidade, como e porque fizeram o aborto”. Enquanto gritam os inocentes assassinados por estas mulheres que “falam abertamente, sem esconder o rosto”, também nós precisamos gritar e protestar contra a impunidade e contra a defesa do assassinato de inocentes. O email da produtora/diretora deste curta abortista é: thereza.jessouroun@gmail.com.

Como se não bastasse a guerra incessante que nos é feita desde fora, também de dentro da Igreja nós recebemos golpes cruéis. Depois de Mons. Fisichella, foi a vez do cardeal de Montreal, Jean-Claude Turcotte, prestar um grande desserviço à Igreja dizendo que o aborto é aceitável em “certas casos”. Que “casos”, eminência? Em que “casos” uma vida inocente pode ser ceifada? Em que “casos” há exceções para a proibição de se matar diretamente um inocente? Será possível que estes senhores não temam pela salvação das próprias almas? Será que eles não sabem que o inferno também aceita púrpura?

Maria, Mãe da Igreja, roga pelos filhos Seus! Olha para a Esposa de Teu Filho, ó Mãe Santíssima; olha por aqueles que trabalham – ou deveriam trabalhar – pela glória do Teu Deus. Roga por nós ao Todo-Poderoso. Concede-nos os Teus favores, sem os quais é impossível vencer esta batalha e quebrar o silêncio que envolve o aborto. Sê em nosso favor, e livra-nos do inimigo com o Teu valor. Maria, Mãe da Igreja, roga pelos filhos Teus!

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[Nota: em consonância com que o foi escrito aqui e aqui, publico também o vídeo produzido pela Julie sobre a Quaresma. O desabafo nele expresso é comum a todos nós católicos que não desejamos senão viver – na medida de nossas misérias e nossos pecados – o melhor possível este tempo santo que a Igreja instituiu com o propósito de nos prepararmos “para celebrar santamente a festa da Páscoa”. Só queremos ser católicos. Isso não é pedir demais. Por uma Quaresma de verdade!]

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Bella (Beauty)

Jorge já tinha comentado en passant sobre este filme. Eu o assisti: fantástico. O roteiro é muito bem feito, a fotografia, excelente. Um dos melhores filmes que já vi. Recomendo muitíssimo. A sinopse oficial: “Uma estrela internacional do futebol (Eduardo Verastegui) está a caminho de assinar um contrato multimilionário quando uma séries de eventos ocorre, levando sua carreira a um abrupto fim. Uma bela garçonete (Tammy Blanchard), lutando para viver em New York, descobre algo sobre ela para o qual não estava preparada. Em um momento irreversível, suas vidas são viradas de ponta-cabeça… até que um simples gesto de bondade une a ambos, tornando um dia como outro qualquer numa experiência inesquecível” (traduzida por mim; sempre é bom desconfiar)

O trailer (com legendas em espanhol):

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Eu sempre fui bastante cético com relação às frases de efeito utilizadas por uma espécie de “cultura de auto-ajuda”, segundo a qual o maior problema do Universo é o fato das pessoas terem baixa estima, e se acharem, tipo, um “joão-ninguém”. E sempre fui assim cético porque a enorme maioria das pessoas com quem eu convivo tem uma consideração exagerada por si própria; os piores casos de baixa auto-estima com os quais me deparei tinham-se, sempre, em conta muito mais alta do que lhes era devido por justiça.

Não acho que eu seja exagerado. Uma das passagens de escritores espirituais que mais me marcou foi quando, há alguns anos, li pela primeira vez o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, e vi que São Luís de Montfort, citando São Bernardo, não tinha um pingo de autocomiseração, pois propunha uma meditação (n. 228) com as seguintes palavras de São Bernardo: “cogita quid fueris, semen putridum; quid sis, vas stercorum; quid futurus sis, esca verminum” (pensa no que foste, semente pútrida; no que és, vaso de esterco; no que serás, comida de vermes). Lembro-me muito bem de que, à primeira vez, foi um choque considerar-me como um vaso de esterco: eu me tinha em alta conta, mais alta do que me era devida, e não o sabia.

Não pretendo tecer considerações detalhadas sobre este curioso fenômeno (já o fiz há algum tempo aqui); gostaria apenas de me perguntar se existem pessoas com “baixa auto-estima”, e se isso pode vir a ser um problema para elas. E o faço sob uma ótica específica: a das garotas que têm anorexia. Nunca havia tido contato com nenhuma anoréxica antes; conheci no entanto, recentemente, uma garota assim, e me impressionei com a quantidade – e, mais ainda, com a “qualidade” – do “material” sobre o problema disponível na internet.

Existe um verdadeiro empenho para se “embelezar” e transformar num ideal o “estilo de vida” anoréxico; é perturbador! Veja-se, por exemplo, o vídeo acima, de “thinspiration” (um curioso e intradutível jogo de palavras com “thin”, “magro”, e “inspiration”, inspiração). My wish: to be pretty (meu desejo: ser bonita). My hope: to be loved (minha esperança: ser amada). My love: anorexia (meu amor: anorexia). Veja-se o desenho da menina vomitando (bulimia; voltamos já já para isso) borboletas: I hate myself (eu me odeio)… I want to be seen as someone breakable and soft (eu quero ser vista como alguém frágil – “quebrável” – e delicada). Nothing tastes as good as thin feels … nothing hurts the way being unloved does …. and WE ALL will reach our goal, if we believe (nada é tão saboroso quanto ser magra … nada machuca tanto quanto não ser amada… e NÓS TODAS vamos atingir nosso objetivo, se nós acreditarmos). WE WILL (NÓS VAMOS)! É incrível – é uma verdadeira lavagem cerebral! And someday you will be proud of today’s not-eating (e um dia você vai ser recompensada por não ter comido hoje)… because you WILL be beautiful (porque você VAI ser bonita). E surge uma Barbie anoréxica (a gente volta daqui a pouco para isso também). If you stop, you’ll never feel the freedom you search for (se você parar, você nunca vai sentir a liberdade que procura); then, you will never see the light you reach for (então você nunca verá a luz que busca). Dare to dream (ouse sonhar).

É, verdadeiramente, um ideal de vida, a ser buscado custe o que custar, e que vale todos os sofrimentos: a fome, os laxantes, o vômito, a solidão, a fraqueza, tudo. É a perfeição a ser atingida, cuja posse recompensa todo e qualquer sacrifício; é a verdadeira liberdade, reservada àquelas que ousam sonhar alto e se empenhar na busca dos seus sonhos. Qualquer semelhança com um ideal religioso às avessas não me parece mera coincidência.

Este tipo de panegírico à doença circula livremente pela internet – é horrível. Existe toda uma “cultura” associada à anorexia vista como um ideal de vida: desde as borboletas e o desejo de ser “leve para voar”, passando pelas “amigas” Anna e Mia (a “Anna” é a anorexia e a “Mia” é a bulimia) que são aquelas que dão apoio às garotas que estão tentando emagrecer (estão “em busca da perfeição”)… Este blog traz em certo momento uma espécie de lista dos jargões: “LF” = “low food” (pouca comida), “NF” = “no food” (sem comida), “miar” = “vomitar” (vem da amiga Mia…), “tive uma compulsão” = “comi muito”… E isto não é o pior, porque as cartas das amigas “Anna e Mia” são verdadeiramente pra provocar estupor. Este profile do orkut, que achei por acaso, traz versões de ambas (aliás, hoje a garota está de “NF” – quer dizer (como só soube depois) que está sem comer). Vejam só (todos os absurdos tipográficos são do original):

CARTA DA MIA

Oi! Meu nome é Bulimia, mas os íntimos me chamam de Mia. Sou sua companheira e vou estar com vc nas horas de mais aperto e desespero, estou com vc e quase sempre com a Anna. Somos o trio perfeito e espero que vc não nos decepcione,pq nós sim somos suas verdadeiras amigas ! Não te decepcionamos e vamos sempre te ajudar. Vc com certeza terá momentos de extrema tristeza,mas passa pq nossa amizade é mais forte. Vc tem aquelas amigas que não te entendem, e se vc contar pra elas, nossa amizade estará em risco, elas irão querer te “ajudar”, mas não é isso o que elas queerem.. elas querem é destruir nosso laço e eu tenho certeza que vc não quer isso, portanto fique de boca fechada, pq vc não tem permissão da Anna de comer, e tem permissão minha de botar tudo pra fora se for necessário ! A escolha é sua, mas nós estaremos SEMPRE com vc e nunca iremos te abandonar ! Vc é forte o bastante para dizer não a seus familiares e “amigos”, nós sabemos disso. Te amamos…  Beijinhos da Mia.

CARTA DA ANA

Meu nome é Anorexia,mas você pode me chamar de Anna. Nós podemos nos tornar grandes amigas. Diziam que vc era tão madura,inteligente,que vc tinha tanto potencial. E eu pergunto, aonde tudo isso foi parar ? Absolutamente em lugar algum !Vc perde tempo falando com seus amigos ! Logo,esses atos não serão mais permitidos. Seus amigos não são verdadeiros. Quando inseguramente vc perguntou a eles: -Estou gorda? E eles te disseram: -Não,claro que não ! Vc sabia que eles estavam mentindo ! Apenas digo a verdade ! E sem falar nos seus pais ! Irei te contar um segredo agora: Bem no fundo,eles estão desapontados com vc. Porque vc se transformou em uma gorda,lerda,e sem merecimento de nada ! Vc não pode contar a ninguém. Se vc decidir o contrário,todo o inferno vai voltar ! Ninguém pode descobrir ! Eu criei vc,magra,perfeita,minha criança lutadora ! Vc é minha,e só minha! Sem mim,vc é nada ! Então,não me contrarie. Quando outras pessoas comentarem,ignore-os ! Esqueça eles,porque todos querem me fazer ir embora. Serei seu melhor apoio,e pretendo continuar assim.

Sinceramente, eu fiquei escandalizado quando encontrei estas coisas ao acesso de todo mundo, com a roupagem bonitinha e as cretinas insinuações de que é preciso afastar-se dos familiares e dos amigos, para não perder o ideal de vida anoréxico. Por isso é que eu volto a dizer que há coisas que não deveriam ser divulgadas… mas este é um outro assunto. Sobre este aqui, que já está ficando longo por demais, só mais dois comentários e um exemplo.

O primeiro comentário é sobre a Barbie anoréxica que aparece no vídeo. Este blog toca, quatro anos atrás, no assunto, e reproduz um comentário de uma anoréxica que vale a pena ser de novo reproduzido aqui:

A comunidade [do orkut] está crescendo espantosamente, numa rápida pesquisa, encontrei um número enorme de blogs com depoimentos chocantes (especialmente para uma mãe, como eu!). Entre esses textos, encontrei um que me chamou muita atenção pela lucidez da menina.

“Vocês podem até ser contra sites destes tipos, mas saibam e vejam que antes de tentar nos mudar vocês vão ter que mudar o mundo. Algumas perguntas relevantes:

1) Por acaso vcs já viram alguma gorda sexy como garota propaganda em alguma grande revista como Marie Clare ou Boa Forma?

2) Por que os maniquins das lojas femininas são baseados em números de 36 a 42 em sua maioria ?

3) Já viu alguma protagonista de filme ou novela realmente gorda???

4) Se o normal é comer porque todo dia lançam no mercado mais e mais produtos e dietas para emagrecimento?

5) Porque nunca colocam um gorda na campanha do Mac Donalds?”

Infelizmente, ela está certíssima. Antes de tentar mudá-las, precisamos mudar o mundo.. Não é o caso de criticá-las, mas de tentar compreendê-las e ajudá-las a superar esse problema. Nesse passeio pelos blogs, minha vontade é de colocá-las no colo. Fico imaginando, quantas mães sabem o que está se passando com essas meninas?

E a “ditadura da beleza” tem, sim, a sua parcela considerável de culpa no drama que estas meninas vivem; cansei de ler coisas como “é melhor morrer magra do que viver gorda” nos profiles de orkut pelos quais andei passeando. Trago o exemplo: este blog é de uma menina de Recife de 16 anos (não sei quem é, e gostaria muitíssimo de saber). O que tem escrito ao lado? “Se você nunca chorou ao ver sua imagem no espelho… Se você nunca sentiu odio de todo o mundo… Se você nuca foi motivo de piada… Se você nunca sentiu vontade de se trancar em seu quarto e nunca mais sair e lá…então você não sabe o que se passa comigo, portanto não venha me julgar”. A menina quer chegar aos 35 kg. E eu, sinceramente, acho um completo absurdo que exista um mundo no qual as meninas sejam forçadas a “se enquadrarem” n’algum perfil obtuso de beleza, sob pena de “ser motivo de piada” ou de chorar “ao ver sua imagem no espelho”. Vontade de chorar tenho eu, ao me deparar com uma situação dessas…

E, aqui, termino com o segundo comentário, retomando o que falei acima, sobre a auto-estima das pessoas. Estas meninas provavelmente sentem-se muito mal; qual a diferença, portanto, delas para o ideal proposto pelos santos para meditação? A diferença é que o problema  – combatido pelos santos – está relacionado à estima do jeito que o mundo a entende. Não basta sentir-se um sapo e desejar ser um rouxinol; não é suficiente ter consciência de que é um patinho feio, mas cultivar secretamente o desejo de vir a ser cisne. Não adianta saber-se um vaso de esterco e desejar, custe o que custar, ser um vaso de bálsamo. Em uma palavra: evidentemente não é para cultivar o desprezo por alguma coisa terrena mantendo, ao mesmo tempo, uma enorme insatisfação e um desejo desordenado de se obter alguma outra coisa terrena. À estima do jeito que o mundo a entende (e que praticamente todo mundo tem – mesmo que seja só “em potência”, em desejo, como as anoréxicas), opõe-se uma espécie de “santa estima”, que é a consciência clara de ser amado por Deus, de que se é filho de Deus e se tem o Céu por herança – isto deve nos bastar. É porque somos filhos de Deus que podemos desprezar as consolações do mundo; não é um mero masoquismo, e sim uma correta ordenação das graças que nos são concedidas. Todo filho de Deus tem do que se orgulhar, tem um bem que não lhe podem arrancar, tem uma riqueza mais valiosa do que qualquer outra que poderia almejar. É na verdade esta a auto-estima – e não a que o mundo apresenta – que deve ser buscada. Porque, na verdade, nem todo mundo pode ser o cisne branco – ou “a borboleta” – apresentado(a) pelo mundo como ideal supremo: no entanto, na casa do Pai há sempre – e sempre haverá, independente das modas do mundo – muitas moradas.

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Um leitor me enviou este vídeo produzido pelos seminaristas dos Legionários de Cristo. Está em espanhol, mas é bem inteligível; trata-se de um apostolado vocacional e, no vídeo, diversos seminaristas respondem por que desejam ser padres. Há respostas excelentes (“porque poucos se atrevem”, “porque não quero ser mais um”, “porque urge mudar este mundo”, “porque um dia Lhe perguntei o que queria de mim”, “porque se vive somente uma vez”, “porque fazem falta sacerdotes santos”).

O site do apostolado é Why not? e, nele, é possível entrar em contato com sacerdotes para se fazer questões sobre a própria vocação. A iniciativa é extremamente louvável! Rezemos ao Senhor da Messe, para que Ele nos envie sempre santos e zelosos sacerdotes. E que a Virgem Santíssima vele sempre pelo nosso clero.

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Eu não entendo absolutamente nada de música erudita. Acho-a, no entanto, bela e agradável de ser ouvida. No auge da minha reconhecida ausência de erudição, fui ontem à noite ao teatro da Universidade assistir a uma cantata, a convite de uma amiga. De acordo com o pequeno folder que recebemos, era uma versão simplificada do espetáculo; mas, para mim, pareceu primorosa. Dois pianos, uma camerata de sopros e metais da universidade e um coral de 160 vozes. Majestoso.

A apresentação – que eu não conhecia – era a Carmina Burana, de Carl Orff. Não sabia do que se tratava, nem mesmo se a expressão era traduzível. O teatro, completamente lotado. Ao início, no telão, apresentou-se o subtítulo em latim: Cantiones profanæ cantoribus et choris cantandæ comitantibus instrumentis atque imaginibus magicis. Deu para entender que eram canções profanas que tinham alguma coisa a ver com imagens mágicas… decidi esperar.

Começou a Fortuna Imperatrix Mundi. Espetacular; embora eu não soubesse o nome, já tinha, sim ouvido a música – quem não ouviu? Latim. No telão, era mostrada a tradução, enquanto as vozes e os instrumentos executavam a melodia. O latim eu tentava identificar de ouvido, feliz quando encontrava a expressão original cuja tradução correspondente eu lia.

As peças sucediam-se, e eu comecei a estranhar as letras daqueles negócios que eram cantados. O “profanae” parecia estar sendo levado muito a sério… por detrás das apresentações espetaculares e sem dúvidas de encher os ouvidos, eu via – graças à tradução exibida – o que estava sendo cantado. Horror. As letras não eram apenas “profanas” no sentido de “não-sagradas”, mas sim de “anti-sagradas”. Dentre as canções, só à guisa de exemplos, encontram-se as seguintes:

Salve, mundo
tão rico de alegrias!
ser-te-ei obediente
pelos prazeres que me permites

entrego-me aos meus vícios,
esquecido das virtudes,
mais ávido de volúpias
do que de salvação,
morta minh’alma
só minha pele me importa.

Queira Deus, queiram os deuses,
aplacar meu desejo:
que eu possa romper
as cadeias da sua virgindade. Ah!

Se um menino com um menina
se encontram em um quarto.
o casamento é feliz.

O amor avulta,
e entre eles
a vergonha é posta de lado
e tem inicio um jogo inefável
em seus membros, braços e lábios.

Inacreditável como é possível alguém passar tantos anti-valores por meio de músicas tão belas! Comecei a ficar incomodado quando vi o sujeito cantar ao “mundo” que lhe seria obediente por causa dos prazeres que ele proporcionava – aliás, a versão traduzida ontem dizia “eu te servirei”. Servir ao mundo por causa dos prazeres que o mundo oferecia! É o anti-Evangelho. A idéia afigurava-se-me como um pacto com Satanás, uma declaração de apostasia: para quê servir a Deus? Comprometo-me a servir ao mundo. Mas – é inegável – a beleza dos arranjos musicais arrebatava o ânimo e arrancava aplausos calorosos. “Servirei ao mundo por causa dos seus prazeres” – e o teatro lotado aplaudia.

Mas, para mim, o ápice foi quando o tenor cantou, em alto e bom latim, que estava mais ávido de volúpia do que de salvação. Em latim! voluptatis avidus / magis quam salutis. Para mim – acostumado com o latim sacro – soava-me incompreensível alguém utilizar a “língua da Igreja” para proferir blasfêmias. E, que blasfêmia horrorosa – como alguém é capaz de escrever (ou de cantar) que está mais ávido de volúpia do que de salvação? O pecado contra o Espírito Santo exibido assim, em toda a clareza do eu-lírico impenitente e empedernido, era repugnante a despeito da beleza da peça.

Nem todas as peças conseguiam atingir este grau de perversão. Muitas eram inocentes – todas, artisticamente bonitas. Mas algumas eram simplesmente chulas. O sujeito clamar aos deuses que aplaquem o desejo dele de “romper as cadeias da (…) virgindade” da garota, afirmando que o “o sopro da primavera (…) torna [o homem] lascivo”, e a menina responder “amor querido, ah, me entrego toda a ti” após o garoto chamar “vem, vem, linda, estou morrendo”, é degradante. Mesmo que seja em latim e em alemão, mesmo que haja dois pianos e cento e sessenta vozes. Percebam bem, não é o amor – mesmo o erótico – entre o homem e a mulher que é degradante, e sim a sua exposição num lugar que não lhe é próprio: num cenário pagão, sob as bênçãos de Vênus e Baco, entre odes à embriaguez e pseudo-conflitos entre “amor lascivo e pudor”, com explícito repúdio à mensagem do Evangelho e louvores ao prazer. Era aviltante.

No final, a apoteose com – de novo – a Fortuna Imperatrix Mundi. Chuva de aplausos, em pé; o espetáculo foi primoroso, sem dúvidas. Talvez as pessoas não tenham prestado atenção naquilo que era cantado; talvez – e pior ainda – não se importem mesmo. Quanto a mim, eu estranhava que o espetáculo depravado fosse de censura livre, sem aviso algum aos navegantes sobre o seu conteúdo…

Foi uma boa noite, fora de discussões, por um duplo motivo. O primeiro, por causa da inegável qualidade da música e da beleza da apresentação; o segundo, porque eu fiquei sabendo que há músicas e músicas, e que certas peças conseguem juntar conteúdos horrorosos com uma tremenda beleza estética. Serviu-me para atiçar a curiosidade e procurar saber exatamente o quê estou escutando; afinal, nem todo espetáculo de música erudita é como a majestosa Messa di Gloria de Puccini que tive a oportunidade de assistir no ano passado…

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Eu ainda não havia posto aqui o Catholics Come Home. Vale a pena (re)ver.

O próprio Jesus lançou as fundações para a nossa fé quando disse a Pedro, o primeiro papa: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.

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