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Posts Tagged ‘quaresma’

Lætáre, Jerúsalem: et convéntum fácite, omnes qui dilígitis eam: gaudéte cum lætítia, qui in tristítia fuístis: ut exsultétis, et satiémini ab ubéribus consolatiónis vestræ. Ps. 121, 1. Lætátus sum in his, quæ dicta sunt mihi: in domum Dómini íbimus. V/. Glória Patri. Lætáre.
[Introito da missa de hoje]

Assim começa a Santa Missa de hoje, quarto domingo da Quaresma, no qual o Roxo penitencial que permeia todo este tempo litúrgico é substituído pelo Rosa; é um grito de júbilo, antecipando a Páscoa que está às portas. Laetare, quer dizer, alegra-te. Alegra-te, Jerusalém – alegra-te, ó Igreja, porque o Senhor é Deus. Uma alegria contida, é verdade: usamos rosa, e não o branco dos dias de festa. Penso num misto de alegria com penitência, como se o rosa fosse resultado da mistura do branco festivo ao roxo quaresmal: ainda é Quaresma, mas a Igreja nos chama à alegria.

Qual o motivo da alegria? Podemos meditar em pelo menos três motivos pelos quais a Igreja nos convida ao júbilo no meio da Quaresma: pelo que somos, pelo que está por vir e – last, but not least – pela própria penitência. Devemos nos alegrar pelo que somos, como a própria Liturgia nos mostra na primeira leitura, da Epístola de São Paulo aos Gálatas, capítulo 4, versículos do 22 ao 31: nós somos filhos da promessa, e não filhos da escrava! Somos amados por Deus. “Abraão teve dois filhos”; e o filho de Sara, da esposa legítima, é figura dos filhos de Deus, dos filhos da Igreja, de nós. Alegremo-nos, diz a Igreja, “porque o filho da escrava não será herdeiro com o filho da livre” (v. 30).

Alegremo-nos também pelo que está por vir: em sentido imediato pela Páscoa, que celebraremos em breve, mas também pela Páscoa definitiva, que celebraremos na Glória dos Céus e que podemos esperar exatamente porque somos filhos da mulher livre, somos filhos da promessa, somos filhos da Igreja! A Páscoa que celebramos ao fim da Quaresma é também figura da Páscoa que – esperamos! – iremos celebrar ao fim da quaresma da nossa vida, ao fim da nossa peregrinação neste Vale de Lágrimas. Alegremo-nos, porque o Sábado Santo sucede à Quaresma; alegremo-nos, porque a Vida Eterna sucede à vida passageira, e a Glória dos Céus sucede aos sofrimentos terrenos. Esta é a nossa esperança, expressa de maneira magnífica no Rito do Batismo quando, indagados sobre o que nos concede a Fé, respondemos prontamente: a Vida Eterna. “[Q]uem não conhece Deus – diz o Papa Bento XVI -, mesmo podendo ter muitas esperanças, no fundo está sem esperança, sem a grande esperança que sustenta toda a vida” (Spe Salvi, 27). Nós conhecemos a Deus, e nós portanto podemos ter esperança verdadeira. Por isso, devemos nos alegrar.

E, por fim, devemos nos alegrar pela própria penitência, a quaresmal em primeiro lugar e a nossa penitência quotidiana – não é, afinal, a Quaresma figura da nossa vida? – que fazemos durante todos os nossos dias. O sofrimento não é vazio de significado; nós não fazemos penitência pelo simples fato de gostarmos de sofrer, mas sim porque sabemos que somos pecadores e sabemos que necessitamos da Misericórdia de Deus. O “alegrai-vos” em meio à penitência tem também o sentido de ecoar aquela máxima evangélica: Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós (Mt 5, 11-12). À luz da Fé Cristã, os nossos sofrimentos não são vazios, nem são frutos de um masoquismo humano ou sadismo divino – não! Os sofrimentos oferecidos a Deus em união aos de Nosso Senhor na Cruz do Calvário serão recompensados. Alegrai-vos, diz-nos a Igreja em meio à penitência quaresmal – aos sofrimentos quotidianos -, porque grande será a vossa recompensa nos Céus.

Em particular nestes dias em que a Igreja sofre tão violenta investida de Seus inimigos e nós, católicos, sofremos tanto ataques por causa de nossa Fé, são consoladoras as palavras de São Paulo na leitura de hoje: “Como naquele tempo o filho da natureza perseguia o filho da promessa, o mesmo se dá hoje” (v. 29). E, por isso, o Laetare deste quarto domingo vem para nos dar forças e consolação. Apesar de tudo, devemos nos alegrar. Apesar dos sofrimentos, e até por causa desses mesmos sofrimentos, pois eles são o fogo no qual o ouro é provado. Não nos esqueçamos de que somos amados por Deus; recordemos a nossa Esperança de celebrarmos um dia a Páscoa Definitiva; e lembremo-nos sempre de que são bem-aventurados aqueles que padecem sofrimentos por causa de Nosso Senhor. Ouçamos o Laetare, Jerusalem que a Igreja nos dirige hoje e, à luz da Fé, respondamos com confiança: Laetatus sum, sim, nós nos alegramos verdadeiramente! Que a Virgem Santíssima nos conceda a todos uma Santa Quaresma.

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[Nota: em consonância com que o foi escrito aqui e aqui, publico também o vídeo produzido pela Julie sobre a Quaresma. O desabafo nele expresso é comum a todos nós católicos que não desejamos senão viver – na medida de nossas misérias e nossos pecados – o melhor possível este tempo santo que a Igreja instituiu com o propósito de nos prepararmos “para celebrar santamente a festa da Páscoa”. Só queremos ser católicos. Isso não é pedir demais. Por uma Quaresma de verdade!]

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Já há quase um mês, comentei aqui sobre a Campanha da Fraternidade. Volto ao assunto agora, que estamos em meados da Quaresma; vou tentar (reconhecendo de antemão a dificuldade da empreitada) ser o mais sincero possível e o mais condescendente possível.

Primeiro, uma retrospectiva: no site da CNBB tem os cartazes de todas as Campanhas da Fraternidade de todos os anos desde 1964. Clicando nas figuras, é possível ver o “objetivo geral” de cada um dos anos. Peguemos uma campanha ao acaso; digamos, 1984, que foi o ano em que eu nasci.

Lema: Comunicação para a verdade e a paz.

Objetivo Geral: Despertar a consciência crítica do receptor no uso da mídia, como atitude interior necessária para a comunicação da verdade e da paz. Quer também conscientizar os receptores sobre seu papel de agentes de influência na orientação de programas nos meios de comunicação.

Um ano é uma amostragem muito pequena. Peguemos ao acaso outro ano; à frente. Digamos, 1999, quinze anos depois.

Lema: Sem trabalho… Por quê?

Objetivo Geral:  Contribuir para que a comunidade eclesial e a sociedade se sensibilizem com a grave situação dos desempregados, conheçam as causas e as articulações que a geram e as conseqüências que dela decorrem;

Denunciar, conseqüentemente, modelos sócio-político-econômicos, tais como certas formas de neoliberalismo sem freios éticos, que causam desemprego quer estrutural quer não estrutural e, igualmente, impõem padrões de consumo insaciável e exacerbem a competição e o individualismo;

Anunciar uma sociedade baseada em novos paradigmas, onde a pessoa humana seja o centro, a vida não se subordine à lógica econômica idolátrica e o trabalho não se reduza à mera sobrevivência, mas promova a vida, em todas as suas dimensões;

Abrir, assim, perspectivas sobre novas relações e novas formas de trabalho prenunciadas para o Novo Milênio;

Incentivar amplo movimento de solidariedade para manter viva a esperança dos que enfrentam diretamente o problema do desemprego, promovendo iniciativas concretas de geração de trabalho e renda, no paradigma da solidariedade cristã;

Mobilizar a própria Igreja para se colocar mais ainda profeticamente a favor da justiça e da solidariedade, principalmente em relação aos desempregados e às desempregadas.

Ainda mais um exemplo; para trás, agora, do ano do meu nascimento. Fomos quinze anos para frente, vamos um pouco menos para trás: dez anos. 1974.

Lema: Onde está teu irmão?

Objetivo Geral:  A vida é o dom que mais fortemente ambicionamos e mais desesperadamente defendemos, a partir do próprio instinto de sobrevivência. A vida é o dom que mais devemos respeitar e promover em nossos irmãos.

Toma-se aqui a vida nos mais diversos níveis e circunstâncias: a vida da graça, a vida moral, a vida da honra, a vida do nascituro, a vida do enfermo e do velho, a vida do pobre e do faminto, a vida vítima de violência e injustiças… É este o dom que devemos construir, e em muitos casos, reconstruir como modernos samaritanos.

Está de bom tamanho. Agora, perguntemo-nos o que é a Quaresma. De acordo com o Catecismo Maior de São Pio X:

499) Para que fim foi instituída a Quaresma?
A Quaresma foi instituída a fim de imitarmos, de algum modo, o rigoroso jejum de quarenta dias que Jesus Cristo observou no deserto, e a fim de nos prepararmos, por meio da penitência, para celebrar santamente a festa da Páscoa.

Pois bem. Eu posso até conceder – embora particularmente seja de opinião frontalmente contrária – que haja alguma relevância n’alguns dos temas escolhidos pela CNBB para serem tratados na Campanha da Fraternidade (embora parte considerável deles seja simplesmente uma porcaria). No entanto, qualquer um há de convir que mesmo o melhor dos temas (da nossa amostragem acima, é de longe o de 1974, único a falar em “vida da graça”…) não nos ajuda (ao contrário, atrapalha) a “imitarmos, de algum modo, o rigoroso jejum de quarenta dias que Jesus Cristo observou no deserto, e (…) nos prepararmos, por meio da penitência, para celebrar santamente a festa da Páscoa”, que, afinal, são os motivos pelos quais foi instituída a Quaresma!

Isto é uma evidência impossível de ser negada: a Campanha da Fraternidade não ajuda nada, absolutamente nada, os católicos a viverem melhor a Quaresma. O problema não está somente nos temas (horríveis) algumas vezes escolhidos; afinal de contas, dêem uma olhada nos cartazes de todas as Campanhas da Fraternidade desde 1964 até o ano presente: qual a relação que existe entre qualquer uma delas e a Quaresma? No meio do lixo, há sem dúvidas temas que pode[ria]m ser bem explorados (como “A Família”, 1994; ou a própria “Fraternidade e Defesa da Vida”, do ano passado). No entanto, nenhum, nenhum deles, nem mesmo os melhores, tem relação direta com a Quaresma.

Onde está o tema “Jejum e Oração: únicos remédios para alguns pecados”? Ou o tema “Oração: alimento para alma”? Ou o tema “Penitência, penitência, penitência”? Ou o tema “Esmola, ato concreto de caridade cristã”? Não existe nada nem parecido com isso nos últimos [mais de] quarenta anos de Campanhas da Fraternidade! Portanto, mesmo quando os temas escolhidos pela CNBB são católicos (o que já é uma coisa rara) ou são catolicamente abordados (o que é tão raro que pode chegar a ser considerado um milagre), eles não são conexos com a Quaresma e, por conseguinte, não ajudam os católicos a viver bem este tempo litúrgico. Ao contrário, estas Campanhas da Fraternidade até atrapalham – por melhores que sejam elas, repito (coisa que, repito também, é muitíssimo rara) -, na medida em que dispersam os católicos, fazendo-os prestarem atenção em temas que não guardam relação direta com o tempo litúrgico no qual as campanhas estão inseridas. É preciso, portanto, afirmar claramente e com muita sinceridade: a Campanha da Fraternidade, atualmente, presta-se a impedir os católicos de viverem realmente a Quaresma. Esta é a verdade nua e crua.

Eu disse no início do artigo que ia ser condescendente; qual a única condescendência possível? Antes de qualquer coisa, parece-me óbvio que a Campanha da Fraternidade precisa urgentemente ser retirada da Quaresma. No entanto, eu concedo [como já disse, discordo, mas concedo] que, nas atuais conjunturas, alguns temas sociais possam ser objeto de alguma campanha da Igreja, contanto que (a) esta campanha não fale besteiras (como sói acontecer na Campanha da Fraternidade – à guisa de exemplo, veja-se este artigo sobre a atual campanha) e (b) ela seja colocada em algum outro período do ano que não a Quaresma (p. ex., como já ouvi sugestões de sacerdotes, um “mês temático” organizado em algum momento (distinto da Quaresma) do ano). Isso sim é possível: o que não dá para fazer é deixar as coisas como estão, porque está realmente insuportável.

Atualmente, estas Campanhas não passam de coisas das quais os verdadeiros católicos têm vergonha, que não servem à glória de Deus e nem tampouco à salvação das almas, que impedem os católicos de viverem a Quaresma. Isso precisa mudar. É pedir muito que as autoridades eclesiásticas do Brasil preocupem-se com as coisas de Deus? É pedir muito que possamos viver o tempo quaresmal de acordo com os motivos pelos quais a Igreja o instituiu? É pedir muito que não precisemos nos envergonhar das campanhas idealizadas por nossos bispos? É pedir muito que possamos ser católicos em paz… ?

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[Fonte: Vaticano]

CARTA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA
A PROPÓSITO DA REMISSÃO DA EXCOMUNHÃO
AOS QUATRO BISPO CONSAGRADOS
PELO ARCEBISPO LEFEBVRE

Amados Irmãos no ministério episcopal!

A remissão da excomunhão aos quatro Bispos, consagrados no ano de 1988 pelo Arcebispo Lefebvre sem mandato da Santa Sé, por variadas razões suscitou, dentro e fora da Igreja Católica, uma discussão de tal veemência como desde há muito tempo não se tinha experiência. Muitos Bispos sentiram-se perplexos perante um facto que se verificou inesperadamente e era difícil de enquadrar positivamente nas questões e nas tarefas actuais da Igreja. Embora muitos Bispos e fiéis estivessem, em linha de princípio, dispostos a considerar positivamente a decisão do Papa pela reconciliação, contra isso levantava-se a questão acerca da conveniência de semelhante gesto quando comparado com as verdadeiras urgências duma vida de fé no nosso tempo. Ao contrário, alguns grupos acusavam abertamente o Papa de querer voltar atrás, para antes do Concílio: desencadeou-se assim um avalanche de protestos, cujo azedume revelava feridas que remontavam mais além do momento. Por isso senti-me impelido a dirigir-vos, amados Irmãos, uma palavra esclarecedora, que pretende ajudar a compreender as intenções que me guiaram a mim e aos órgãos competentes da Santa Sé ao dar este passo. Espero deste modo contribuir para a paz na Igreja.

Uma contrariedade que eu não podia prever foi o facto de o caso Williamson se ter sobreposto à remissão da excomunhão. O gesto discreto de misericórdia para com quatro Bispos, ordenados válida mas não legitimamente, de improviso apareceu como algo completamente diverso: como um desmentido da reconciliação entre cristãos e judeus e, consequentemente, como a revogação de quanto, nesta matéria, o Concílio tinha deixado claro para o caminho da Igreja. E assim o convite à reconciliação com um grupo eclesial implicado num processo de separação transformou-se no seu contrário: uma aparente inversão de marcha relativamente a todos os passos de reconciliação entre cristãos e judeus feitos a partir do Concílio – passos esses cuja adopção e promoção tinham sido, desde o início, um objectivo do meu trabalho teológico pessoal. O facto de que esta sobreposição de dois processos contrapostos se tenha verificado e que durante algum tempo tenha perturbado a paz entre cristãos e judeus e mesmo a paz no seio da Igreja, posso apenas deplorá-lo profundamente. Disseram-me que o acompanhar com atenção as notícias ao nosso alcance na internet teria permitido chegar tempestivamente ao conhecimento do problema. Fica-me a lição de que, para o futuro, na Santa Sé deveremos prestar mais atenção a esta fonte de notícias. Fiquei triste pelo facto de inclusive católicos, que no fundo poderiam saber melhor como tudo se desenrola, se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de lança em riste. Por isso mesmo sinto-me ainda mais agradecido aos amigos judeus que ajudaram a eliminar prontamente o equívoco e a restabelecer aquela atmosfera de amizade e confiança que, durante todo o período do meu pontificado – tal como no tempo do Papa João Paulo II –, existiu e, graças a Deus, continua a existir.

Outro erro, que lamento sinceramente, consiste no facto de não terem sido ilustrados de modo suficientemente claro, no momento da publicação, o alcance e os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009. A excomunhão atinge pessoas, não instituições. Um ordenação episcopal sem o mandato pontifício significa o perigo de um cisma, porque põe em questão a unidade do colégio episcopal com o Papa. Por isso a Igreja tem de reagir com a punição mais severa, a excomunhão, a fim de chamar as pessoas assim punidas ao arrependimento e ao regresso à unidade. Passados vinte anos daquelas ordenações, tal objectivo infelizmente ainda não foi alcançado. A remissão da excomunhão tem em vista a mesma finalidade que pretende a punição: convidar uma vez mais os quatro Bispos ao regresso. Este gesto tornara-se possível depois que os interessados exprimiram o seu reconhecimento, em linha de princípio, do Papa e da sua potestade de Pastor, embora com reservas em matéria de obediência à sua autoridade doutrinal e à do Concílio. E isto traz-me de volta à distinção entre pessoa e instituição. A remissão da excomunhão era um provimento no âmbito da disciplina eclesiástica: as pessoas ficavam libertas do peso de consciência constituído pela punição eclesiástica mais grave. É preciso distinguir este nível disciplinar do âmbito doutrinal. O facto de a Fraternidade São Pio X não possuir uma posição canónica na Igreja não se baseia, ao fim e ao cabo, em razões disciplinares mas doutrinais. Enquanto a Fraternidade não tiver uma posição canónica na Igreja, também os seus ministros não exercem ministérios legítimos na Igreja. Por conseguinte, é necessário distinguir o nível disciplinar, que diz respeito às pessoas enquanto tais, do nível doutrinal em que estão em questão o ministério e a instituição. Especificando uma vez mais: enquanto as questões relativas à doutrina não forem esclarecidas, a Fraternidade não possui qualquer estado canónico na Igreja, e os seus ministros – embora tenham sido libertos da punição eclesiástica – não exercem de modo legítimo qualquer ministério na Igreja.

À luz desta situação, é minha intenção unir, futuramente, a Comissão Pontifícia «Ecclesia Dei» – instituição competente desde 1988 para as comunidades e pessoas que, saídas da Fraternidade São Pio X ou de idênticas agregações, queiram voltar à plena comunhão com o Papa – à Congregação para a Doutrina da Fé. Deste modo torna-se claro que os problemas, que agora se devem tratar, são de natureza essencialmente doutrinal e dizem respeito sobretudo à aceitação do Concílio Vaticano II e do magistério pós-conciliar dos Papas. Os organismos colegiais pelos quais a Congregação estuda as questões que se lhe apresentam (especialmente a habitual reunião dos Cardeais às quartas-feiras e a Plenária anual ou bienal) garantem o envolvimento dos Prefeitos de várias Congregações romanas e dos representantes do episcopado mundial nas decisões a tomar. Não se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962: isto deve ser bem claro para a Fraternidade. Mas, a alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Concílio, deve também ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja. Quem quiser ser obediente ao Concílio, deve aceitar a fé professada no decurso dos séculos e não pode cortar as raízes de que vive a árvore.

Dito isto, espero, amados Irmãos, que tenham ficado claros tanto o significado positivo como os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009. Mas resta a questão: Tal provimento era necessário? Constituía verdadeiramente uma prioridade? Não há porventura coisas muito mais importantes? Certamente existem coisas mais importantes e mais urgentes. Penso ter evidenciado as prioridades do meu Pontificado nos discursos que pronunciei nos seus primórdios. Aquilo que disse então permanece inalteradamente a minha linha orientadora. A primeira prioridade para o Sucessor de Pedro foi fixada pelo Senhor, no Cenáculo, de maneira inequivocável: «Tu (…) confirma os teus irmãos» (Lc 22, 32). O próprio Pedro formulou, de um modo novo, esta prioridade na sua primeira Carta: «Estai sempre prontos a responder (…) a todo aquele que vos perguntar a razão da esperança que está em vós» (1 Ped 3, 15). No nosso tempo em que a fé, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que já não recebe alimento, a prioridade que está acima de todas é tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus. Não a um deus qualquer, mas àquele Deus que falou no Sinai; àquele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado até ao extremo (cf. Jo 13, 1) em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. O verdadeiro problema neste momento da nossa história é que Deus possa desaparecer do horizonte dos homens e que, com o apagar-se da luz vinda de Deus, a humanidade seja surpreendida pela falta de orientação, cujos efeitos destrutivos se manifestam cada vez mais.

Conduzir os homens para Deus, para o Deus que fala na Bíblia: tal é a prioridade suprema e fundamental da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo. Segue-se daqui, como consequência lógica, que devemos ter a peito a unidade dos crentes. De facto, a sua desunião, a sua contraposição interna põe em dúvida a credibilidade do seu falar de Deus. Por isso, o esforço em prol do testemunho comum de fé dos cristãos – em prol do ecumenismo – está incluído na prioridade suprema. A isto vem juntar-se a necessidade de que todos aqueles que crêem em Deus procurem juntos a paz, tentem aproximar-se uns dos outros a fim de caminharem juntos – embora na diversidade das suas imagens de Deus – para a fonte da Luz: é isto o diálogo inter-religioso. Quem anuncia Deus como Amor levado «até ao extremo» deve dar testemunho do amor: dedicar-se com amor aos doentes, afastar o ódio e a inimizade, tal é a dimensão social da fé cristã, de que falei na Encíclica Deus caritas est.

Em conclusão, se o árduo empenho em prol da fé, da esperança e do amor no mundo constitui neste momento (e, de formas diversas, sempre) a verdadeira prioridade para a Igreja, então fazem parte dele também as pequenas e médias reconciliações. O facto que o gesto submisso duma mão estendida tenha dado origem a um grande rumor, transformando-se precisamente assim no contrário duma reconciliação é um dado que devemos registar. Mas eu pergunto agora: Verdadeiramente era e é errado ir, mesmo neste caso, ao encontro do irmão que «tem alguma coisa contra ti» (cf. Mt 5, 23s) e procurar a reconciliação? Não deve porventura a própria sociedade civil tentar prevenir as radicalizações e reintegrar os seus eventuais aderentes – na medida do possível – nas grandes forças que plasmam a vida social, para evitar a segregação deles com todas as suas consequências? Poderá ser totalmente errado o facto de se empenhar na dissolução de endurecimentos e de restrições, de modo a dar espaço a quanto nisso haja de positivo e de recuperável para o conjunto? Eu mesmo constatei, nos anos posteriores a 1988, como, graças ao seu regresso, se modificara o clima interno de comunidades antes separadas de Roma; como o regresso na grande e ampla Igreja comum fizera de tal modo superar posições unilaterais e abrandar inflexibilidades que depois resultaram forças positivas para o conjunto. Poderá deixar-nos totalmente indiferentes uma comunidade onde se encontram 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos universitários, 117 irmãos, 164 irmãs e milhares de fiéis? Verdadeiramente devemos com toda a tranquilidade deixá-los andar à deriva longe da Igreja? Penso, por exemplo, nos 491 sacerdotes: não podemos conhecer toda a trama das suas motivações; mas penso que não se teriam decidido pelo sacerdócio, se, a par de diversos elementos vesgos e combalidos, não tivesse havido o amor por Cristo e a vontade de anunciá-Lo e, com Ele, o Deus vivo. Poderemos nós simplesmente excluí-los, enquanto representantes de um grupo marginal radical, da busca da reconciliação e da unidade? E depois que será deles?

É certo que, desde há muito tempo e novamente nesta ocasião concreta, ouvimos da boca de representantes daquela comunidade muitas coisas dissonantes: sobranceria e presunção, fixação em pontos unilaterais, etc. Em abono da verdade, devo acrescentar que também recebi uma série de comoventes testemunhos de gratidão, nos quais se vislumbrava uma abertura dos corações. Mas não deveria a grande Igreja permitir-se também de ser generosa, ciente da concepção ampla e fecunda que possui, ciente da promessa que lhe foi feita? Não deveremos nós, como bons educadores, ser capazes também de não reparar em diversas coisas não boas e diligenciar por arrastar para fora de mesquinhices? E não deveremos porventura admitir que, em ambientes da Igreja, também surgiu qualquer dissonância? Às vezes fica-se com a impressão de que a nossa sociedade tenha necessidade pelo menos de um grupo ao qual não conceda qualquer tolerância, contra o qual seja possível tranquilamente arremeter-se com aversão. E se alguém ousa aproximar-se do mesmo – do Papa, neste caso – perde também o direito à tolerância e pode de igual modo ser tratado com aversão sem temor nem decência.

Amados Irmãos, nos dias em que me veio à mente escrever-vos esta carta, deu-se o caso de, no Seminário Romano, ter de interpretar e comentar o texto de Gal 5, 13-15. Notei com surpresa o carácter imediato com que estas frases nos falam do momento actual: «Não abuseis da liberdade como pretexto para viverdes segundo a carne; mas, pela caridade, colocai-vos ao serviço uns dos outros, porque toda a lei se resume nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente, tomai cuidado em não vos destruirdes uns aos outros». Sempre tive a propensão de considerar esta frase como um daqueles exageros retóricos que às vezes se encontram em São Paulo. E, sob certos aspectos, pode ser assim. Mas, infelizmente, este «morder e devorar» existe também hoje na Igreja como expressão duma liberdade mal interpretada. Porventura será motivo de surpresa saber que nós também não somos melhores do que os Gálatas? Que pelo menos estamos ameaçados pelas mesmas tentações? Que temos de aprender sempre de novo o recto uso da liberdade? E que devemos aprender sem cessar a prioridade suprema: o amor? No dia em que falei disto no Seminário Maior, celebrava-se em Roma a festa de Nossa Senhora da Confiança. De facto, Maria ensina-nos a confiança. Conduz-nos ao Filho, de Quem todos nós podemos fiar-nos. Ele guiar-nos-á, mesmo em tempos turbulentos. Deste modo quero agradecer de coração aos numerosos Bispos que, neste período, me deram comoventes provas de confiança e afecto, e sobretudo me asseguraram a sua oração. Este agradecimento vale também para todos os fiéis que, neste tempo, testemunharam a sua inalterável fidelidade para com o Sucessor de São Pedro. O Senhor nos proteja a todos nós e nos conduza pelo caminho da paz. Tais são os votos que espontaneamente me brotam do coração neste início da Quaresma, tempo litúrgico particularmente favorável à purificação interior, que nos convida a todos a olhar com renovada esperança para a meta luminosa da Páscoa.

Com uma especial Bênção Apostólica, me confirmo

Vosso no Senhor

BENEDICTUS PP. XVI

Vaticano, 10 de Março de 2009.

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[Agradeço ao Fratres in Unum, onde encontrei o documento – que pode ser encontrado também no site da Diocese de Garanhuns – de Sua Excelência Reverendíssima Dom Fernando Guimarães, Bispo de Garanhuns (a cuja posse, aliás, estive presente no ano passado), proibindo a celebração das “confissões comunitárias” durante a Quaresma em sua diocese. Reproduzo-o com muita alegria aqui; os negritos são do original.

A questão reveste-se de particular importância porque é muito comum encontrar confissões comunitárias sendo celebradas fora das condições prescritas pelo Código de Direito Canônico e, faltando estas, a confissão celebrada é inválida e não apenas ilícita. O Sacramento da Confissão é um Sacramento que exige jurisdição da Igreja para que seja válido (não apenas para que seja lícito) e ninguém tem jurisdição – nem os bispos têm potestade para concedê-la – para dar uma absolvição comunitária válida fora das condições que a Igreja prescreve para tanto. Portanto – e isso precisa ser dito com clareza -, as confissões comunitárias que são indevidamente celebradas não são verdadeiros sacramentos, não conferem a Graça, não perdoam os pecados.]

NOTA SOBRE CONFISSÕES COMUNITÁRIAS

Aos Sacerdotes e Fiéis da Diocese de Garanhuns,

Saudações em Cristo Jesus.

No início da Quaresma, tempo de preparação espiritual para a Páscoa do Senhor, especialmente dedicado à penitência e à confissão de nossos pecados, desejo apresentar a todos as seguintes reflexões.

  1. A forma habitual da celebração do Sacramento da Reconciliação ou da Confissão, segundo as normas da Igreja, é a confissão sacramental, com acusação individual dos próprios pecados, seguida pela absolvição concedida pelo Sacerdote a cada pessoa que se confessa (cf. cânon 960). A absolvição coletiva só pode ser concedida, excepcionalmente, quando se realizam simultaneamente todas as condições previstas pelas normas canônicas, competindo ao Bispo julgar quando tal situação se configura (cf. cânon 961, §§ 1-2).
  2. Tanto o Servo de Deus Papa João Paulo II, como o atual Sumo Pontífice Bento XVI, têm insistido repetidas vezes acerca da importância da confissão individual na vida cristã, pedindo que se restabeleça a legítima norma litúrgica, onde se introduziram abusos.
  3. No uso das minhas atribuições episcopais, após considerar com atenção todas as circunstâncias e reconhecendo não existirem entre nós as condições previstas pelo Código de Direito Canônico, proíbo definitiva e peremptoriamente a celebração das assim chamadas “confissões comunitárias” no território da Diocese de Garanhuns.
  4. As Paróquias, segundo a disponibilidade dos Sacerdotes, estabeleçam horários fixos de atendimento de confissões, podendo as mesmas ser precedidas por uma preparação comunitária, à qual, porém, devem seguir necessariamente a confissão e a absolvição individuais.
  5. Nos tempos fortes do Ano Litúrgico (Advento e Quaresma), bem como nas proximidades das grandes festas, o Setor Pastoral organize os “mutirões” de confissão, concentrando os Padres da redondeza cada dia em uma Paróquia para atendimento das confissões, as quais podem seguir a modalidade indicada no número anterior.
  6. Os Párocos aproveitem o período da Quaresma para explicar bem aos fiéis a doutrina católica acerca do Sacramento da Confissão, de maneira que ele possa ser vivido de maneira sempre mais proveitosa.

Esta Nota seja lida em todas as Santas Missas dominicais dos dias 26 e 27 de Fevereiro próximo, Primeiro Domingo da Quaresma, e as disposições nelas contidas têm efeito imediato.

Garanhuns, na sede da Cúria Diocesana, aos 26 de Fevereiro de 2009

X Fernando Guimarães

Bispo Diocesano de Garanhuns

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[Neste primeiro Domingo da Quaresma, publico o sermão seguinte do pe. António Vieira, proferido à mesma ocasião, em 1665. Gosto particularmente deste; é muito longo e, para facilitar a navegação pelo blog, vou pôr uma quebra, bastando clicar nela para que se leia a obra na íntegra.

Apenas lembrando, estes e outros sermões do pe. António Vieira estão disponíveis para download aqui.]

SERMÃO DA PRIMEIRA

DOMINGA DA QUARESMA,

PREGADO NA CAPELA REAL,
NO ANO DE 1655.

Ostendit ei omnia regna mundi, et gloriam eorum,
et dixit ei: Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me.
1

§I

Como o demônio dos remédios faz tentações, nós, das tentações, façamos remédio, sendo liberais com o demônio, fazendo das pedras pão, e dos precipícios caminhos. Tomando por fundamento a terceira tentação do demônio, o autor ensina-nos a vencer qualquer tentação usando das mesmas tentações.

55. Se o demônio é tão astuto que até dos nossos remédios faz tentações, por que não sereinos nós tão prudentes, que até das suas tentações façamos remédios? Esta é a conclusão que tiro hoje de toda a história do Evangelho. Quarenta dias havia, e quarenta noites, que jejuava Cristo em um deserto. Sucedeu ao jejum naturalmente a fome, e sobre a fome veio logo a tentação: Si Filius Dei es, dic ut lapides isti panes fiant (Mt. 4,3): Se és Filho de Deus – diz o demônio – manda a estas pedras que se convertam em pães. Vede se inferi bem que dos nossos remédios faz o demônio tentação: com as pedras se defendia das suas tentações S. Jerônimo; os desertos e soledades são as fortalezas dos anacoretas; o jejum de quarenta dias foi uma penitência prodigiosa; procurar de comer aos que hão fome é obra de misericórdia; converter pedras em pão, com uma palavra, é onipotência; ser Filho de Deus, é divindade. Quem cuidara que de tais ingredientes como estes se havia de compor uma tentação? De pedras, de deserto, de jejum, de obra de misericórdia, de onipotência, de divindade? De pedras: lapides isti; de deserto: ductus est Jesus in desertum; de jejum: cum jejunasset; de obra de misericórdia: panes fiant; de onipotência: dic; de divindade: Si Filius Dei es. Se o demônio tenta com as pedras, que fará com condições menos duras? Se tenta com o deserto, que será com o povoado e com a corte? Se tenta com o jejum, que será com o regalo? Se tenta com a obra de misericórdia, que será com a injustiça? Se tenta com a onipotência, que será com a fraqueza? E se até com a divindade tenta, com a humanidade e com a desumanidade, que será?

56. Vencido o demônio nesta primeira tentação, diz o texto que levou a Cristo à Cidade Santa de Jerusalém, e, pondo-o sobre o mais alto do Templo, lhe disse desta maneira: Mitte te deorsum. Scriptum est enim, quia angelis suis Deus maadavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: Deita-te daqui abaixo, porque prometido está na Sagrada Escritura que mandará Deus aos seus anjos te, guardem em todos teus caminhos.2 – Vede outra vez como tornam os remédios a ser tentações, e nesta segunda tentação, ainda com circunstâncias mais notáveis. E quais foram? A Cidade Santa, o Templo de Jerusalém, as Sagradas Escrituras, os Mandamentos de Deus, os Anjos da Guarda, e também o descer para baixo. Podia haver coisas menos ocasionadas para tentações? Pois disto fez o demônio uma tentação. Da Cidade Santa: Assumpsit eum in sanctam civitatem; do templo de Jerusalém: Et statuit eum super pinaculum Templi; da Sagrada Escritura: Scriptum est enim; dos mandamentos de Deus: Deus mandavit de te; dos Anjos da Guarda:Angelis suis ut custodiant te; do descer para baixo: Mitte te deorsum. Se o demônio tenta com a Cidade Santa, que será com a cidade escandalosa? Se tenta com o Templo de Deus, que será com as casas dos ídolos? Se tenta com as Sagradas Escrituras, que será com os livros profanos? Se tenta com os Mandamentos de Deus, que será com as leis do mundo? Se tenta com os Anjos da Guarda, que será com os anjos da perdição? Se tenta finalmente com o descer; que será com o subir?

57. Eis aqui como o demônio, dos remédios faz tentações. Mas como será possível que nós, das tentações, façamos remédios? O demônio, na primeira tentação, pediu a Cristo que fizesse das pedras pão, e na segunda, que fizesse dos precipícios caminhos. Que coisa são as tentações senão pedras e precipícios? Pedras em que tropeçamos, e precipícios donde caímos. Pois como é possível que das pedras em que tropeçamos se faça pão com que nos sustentemos, e dos precipícios donde caímos se façam caminhos por onde subamos? Isto havemos de ver hoje, e hei de ser tão liberal com o demônio, que lhe hei de conceder tudo o que Cristo lhe negou. Que queres demônio? Que te faça das pedras pão? Sou contente. Que queres mais? Que dos precipícios faça caminhos? Também farei isso hoje. O demônio do pão fez pedras, e dos caminhos fez precipícios, porque dos remédios fez tentações. Eu às avessas: das pedras hei de fazer pão, e dos precipícios caminho, porque das tentações hei de fazer remédios.

58. Para reduzir todo este ponto tão grande e tão importante a uma só máxima universal, tomei por fundamento a terceira tentação que propus, que é a maior que o demônio fez hoje a Cristo, e a maior que nunca se fez, nem há de fazer, nem pode fazer no mundo. Vencido primeira e segunda vez o demônio, não desesperou da vitória, porque lhe faltava ainda por correr a terceira lança em que mais confiava. Levou a Cristo ao cume de um monte altíssimo, e, mostrando-lhe dali todos os reinos e monarquias do mundo, com todas suas glórias e grandezas, com todas suas riquezas e delícias, com todas suas pampas e majestades, apontando em roda para todo este mapa universal, tão grande, tão formoso, tão vária, disse assim: Haec omnia tibi dabo, si cadens, adoraveris me: Tudo isto que vês te darei, se com o joelho em terra, me adorares. – Esta foi a última tentação do diabo, e esta foi a terceira vitória de Cristo. As armas com que o Senhor se defendeu, e o remédio que tomou nesta tentação, como nas outras, foram as palavras da Escritura Sagrada: Dominum Deum tuum adorabis, et illi soli servies.3 É a Escritura Sagrada um armazém divino ande se acham todas as armas; é uma oficina medicinal, onde se acham todos os remédios; esta é aquela torre de Davi da qual disse Salomão: Mile clypei pendent ex ea, omnis armatura fortium,4 porque, como comenta S. Gregório: Universa nostra munitia in sacro eloquio continetur.5 Esta é aquela botica universal da qual diz S. Basílio: Ab Scriptura unusquisque tanquam ab officina medicinae appositum suae infirmitati medicamentum invenire poterit.6 E muito antes o tinha dito a Sabedoria: Neque herba, neque malagma sanavit, sed tuus Domine sermo, qui sanat omnia.7 Poderosíssimas armas e eficasíssimos remédios contra as tentações do demônio são as divinas Escrituras. Mas como eu prego para todos, e nem todos podem menear estas armas, nem usar destes remédios, é o meu intento hoje inculcar-vos outras armas mais prontas, e outros remédios mais fáceis, com que todos possais resistir a todas as tentações. Na boca da víbora pôs a natureza a peçonha, e juntamente a triaga. Se quando a semente tentou aos primeiros homens souberam eles usar bem das suas mesmas palavras, não haviam mister outras armas para resistir nem outro remédio para se conservar no paraíso. O mais pronto e mais fácil remédio contra qualquer tentação do demônio é a mesma tentação. A mesma coisa oferecida pelo demônio é tentação; bem considerada por nós, é remédio. Isto hei de pregar hoje.

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[Fonte: Permanência]

A COROA DE ESPINHOS

6a. feira depois das Cinzas

«Saí, filhas de Sião, e vêde o rei Salomão com o diadema de que sua mãe o coroou no dia do seu casamento e no dia do júbilo do seu coração» (Ct 3, 11)

É a voz da Igreja que convida as almas dos fiéis a contemplar quão admirável e belo é seu Esposo. Pois as filhas de Sião são iguais às filhas de Jerusalém, almas santas, habitantes do Reino de Deus, que gozam, com os anjos, da paz perpétua e da contemplação da glória do Senhor.

I. — Saí, ou seja, deixai a vida turbulenta deste mundo, para que, com o espírito livre, possais contemplar aquele a quem amais. E vêde o rei Salomão, isto é, o verdadeiro e pacífico Cristo. Com o diadema de que sua mãe o coroou; que é como se dissesse: considerai o Cristo, que, por nós, se fez carne, que tomou a carne da carne de sua Virgem Mãe. O diadema é sua carne, carne que tomou por nós, carne na qual morreu, destruindo o império da morte; carne na qual ressuscitou, deixando-nos a esperança da ressurreição.

Deste diadema, diz o Apóstolo (Heb 2, 9): « Mas aquele Jesus, que por um pouco foi feito inferior aos anjos, nós o vemos, pela paixão da morte, coroado de glória e de honra ». Diz-se que sua mãe o coroou, pois a Virgem Maria deu-lhe a carne de sua carne.

No dia do seu casamento, isto é, no tempo de sua Encarnação, quando a si uniu a Igreja, sem mácula nem ruga; ou quando Deus uniu-se ao homem. No dia do júbilo do seu coração. A alegria e o júbilo de Cristo é a salvação e a redenção do gênero humano; « e, indo para casa, chama os seus amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Congratulai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha » (Lc 15, 6).

II. — Pode-se, também, aplicar tudo isso à Paixão de Cristo, segundo a letra. Com efeito, Salomão, prevendo em espírito a Paixão de Cristo muito antes, adverte as filhas de Sião, isto é, o povo Israelita: Saí, filhas de Sião, e vede o rei Salomão, isto é, o Cristo; com o diadema, ou a coroa de espinhos, que sua mãe, a sinagoga, o coroou no dia do seu casamento, quando a si uniu a Igreja, e no dia do júbilo do seu coração, quando rejubilou-se por ter, por sua Paixão, redimido o mundo do poder do inferno.

Saí, portanto, e deixai as trevas da infidelidade, e vede, isto é, compreendei que aquele que sofre como homem, é Deus verdadeiramente. Ou ainda: saí para fora de sua cidade para o verdes, crucificado, sobre o monte Calvário.

Expositio in Canticum canticorum, III

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