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Posts Tagged ‘comunismo’

Gostaria de tecer alguns comentários sobre um artigo do Olavo de Carvalho, publicado no seu site na semana passada, chamado Orando com os avestruzes. Soube apenas a posteriori (graças a um outro artigo do Veritatis Splendor anteontem publicado) que as palavras “despejadas na rede” e comentadas pelo filósofo eram da autoria do Pedro Ravazzano, e foram feitas em uma lista de emails da qual o Pedro participa.

Pois bem; para não demorar-me, o artigo do Olavo apresenta, a meu ver, três problemas.

1. A patente desproporção. Como é que um artigo numa lista de emails privada à qual sabe-se lá quantas pessoas têm acesso recebe uma resposta no site do Olavo de Carvalho e no Diário do Comércio, 24 de março de 2009? Isto torna absolutamente pertinente a queixa do Ravazzano na réplica publicada pelo Veritatis: “De todo o modo, sempre é pertinente frisar que, nessa confusão, que eu caí de pára-quedas – afinal não esperava que um simples comentário fechado tomasse grandes proporções – jamais ultrajei ou ofendi o Olavo e sua família, e queria ser tratado da mesma maneira”.

2. A falsa oposição entre militância anticomunista e vida interior. Também sobre isso falou o Pedro, dizendo: “Olavo coloca como se eu tivesse feito uma integral condenação do anticomunismo militante quando, na verdade, apenas afirmei que aqueles católicos que desconheciam as condenações da Igreja ao comunismo, mas viviam em entrega a Deus e seguiam piedosamente os princípios e preceitos cristãos, tornavam-se anticomunistas naturalmente”. É perfeitamente natural – aliás, é necessário – que um católico, se bom católico, tome posição frontalmente contrária ao comunismo, mas a recíproca não é verdadeira: nada garante que um “anticomunista” torne-se ipso facto um bom católico. E simplesmente ser “anticomunista”, rasgue as vestes quem o quiser, não salva ninguém: esta é a verdade. É necessário ser católico, e bom católico – e a missão da Igreja, por evidente, é forjar católicos, e salvar as almas uma a uma.

Não é respeitoso para com a vida espiritual referir-se a ela da forma como o fez Olavo de Carvalho. Não é justo chamar as pessoas que estão sinceramente preocupadas em praticar a sua Fé de avestruzes e insinuar negligência delas no combate ao comunismo. As palavras do Olavo – p.ex., “[c]omo pode a vida religiosa ter-se prostituído a tal ponto que um fiel católico já não enxerga nada de ofensivo em acreditar que os mais de trinta milhões de mártires e combatentes cristãos sacrificados pela sanha comunista na Rússia, na Polônia, na Hungria, na China, em Cuba e um pouco por toda parte merecem apenas as nossas orações, se tanto, em vez da nossa firme disposição de correr o mesmo risco que eles correram?” – são meras hipérboles de retórica. Primeiro, porque passa a impressão de que temos todos a obrigação moral de pegarmos em armas e fazermos incursões milicianas a Cuba para derrubarmos o regime comunista, o que é gritantemente falso. Sim, os mártires são honrados, mas ninguém deve lançar-se em busca do martírio, óbvio – isso sim seria tentar a Deus. Segundo, porque todo o artigo do Olavo é baseado no boneco de palha já trazido à luz: não existe – a não ser na cabeça do Olavo – nem sombra de um “lavar as mãos” com requintes de pacifismo no discurso católico.

3. A apresentação do Vaticano II como bode expiatório. Parece brincadeira: a culpa de tudo recai nas costas do Concílio! Não sei como ainda não surgiu uma demonstração incontestável de que o aquecimento global, a crise financeira, a eleição de Barack Obama, o nobel de Saramago, os atentados de 11 de setembro e os massacres da Faixa de Gaza foram causados pelo Concílio Vaticano II. Não duvido que alguém se aventure a fazê-la. No entanto, e isso é muito de se lamentar, o Olavo presta um grande desserviço à Igreja ao vir com as acusações do tipo:

O cardeal Pallavicini ensinava que “convocar um concílio geral, exceto quando exigido pela mais absoluta necessidade, é tentar Deus”. Desde a fundação da Igreja até a década de 60 do século findo, realizaram-se vinte concílios. Nenhum deles incorreu nesse pecado. Cada um, segundo enfatizava o cardeal Manning, “foi convocado para extinguir a heresia principal ou para corrigir o mal maior da respectiva época”. O primeiro a desprezar essa exigência, e a desprezá-la não por descuido, não por um lapso, não por negligência, mas por vontade expressa e por firme decisão de seus convocantes, foi o Concílio Vaticano II.

Dada a conclusão do artigo, caberia perguntar o quê, exatamente, o Olavo tencionava com ele. Abrir, por algum motivo desconhecido do grande público, uma polêmica incompreensível com um jovem de Salvador? Inverter a importância das coisas e colocar a militância anticomunista sozinha (e não a imitação de Cristo) como o valor máximo a ser buscado nesta vida? Ou simplesmente ter um pretexto para atacar um Concílio Legítimo da Igreja Católica?

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Para não esquecer:

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Em ZENIT, dois coelhos com uma caixa d’água só: a Igreja perante o nazismo empenhada no auxílio aos judeus, e as desgraças provocadas pelo comunismo da União Soviética.

Contra o nazismo: “operação papéis falsos”.

«Nós, os judeus refugiados em Assis, não nos esqueceremos nunca do que se fez por nossa salvação. Porque em uma perseguição que aniquilou seis milhões de judeus, em Assis não afetou nenhum».

Contra o comunismo: “a grande fome da Rússia”.

«Hoje celebramos o 75º aniversário do Holodomor – a grande fome – que entre os anos 1932 e 1933 causou milhares de mortes na Ucrânia e em outras regiões da União Soviética durante o regime comunista».

O Papa expressou vivamente seu desejo de que«nenhum regime político possa jamais, em nome de uma ideologia, negar os direitos da pessoa humana e sua liberdade e dignidade», e aproveitou a ocasião para assegurar sua oração pelas «vítimas inocentes daquela enorme tragédia».

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– Ora, tu sabes que, em qualquer empreendimento, o mais trabalhoso é o começo, sobretudo para quem for novo e tenro? Pois é sobretudo nessa altura que se é moldado, e se enterra a matriz que alguém queira imprimir numa pessoa?
– Absolutamente.
– Então, havemos de consentir sem mais que as crianças escutem fábulas fabricadas ao acaso por quem calhar, e recolham na sua alma opiniões na sua maior parte contrárias às que, quando crescerem, entendemos que deverão ter?
– Não consentiremos de nenhuma maneira.
– Logo, devemos começar por vigiar os autores de fábulas, e selecionar as que forem boas e proscrever as más. As que forem escolhidas, persuadiremos as amas e as mães a contá-las às crianças, e a moldar as suas almas por meio das fábulas, com muito mais cuidado do que os corpos com as mãos.
[Platão, “A República”, Livro II (377a-e); Editora Martin Claret, São Paulo, 2006, pp. 65-66]

Há um princípio fundamental e basilar, não só da Doutrina Católica como também da Lei Natural, segundo o qual o erro não tem direitos. Pode e deve, portanto, ser coibido, principalmente se houver pessoas que, indefesas contra o erro, puderem ser por ele gravemente prejudicadas. Isso tem uma particular validade quando se trata de crianças, seres humanos em formação e que, mais que ninguém, são indefesas diante dos estímulos externos e grandemente influenciáveis por eles.

Platão já tinha percebido isso há mais de dois milênios! N’A República, ele expõe – pela boca de Sócrates – os princípios que, na concepção dele, deveriam nortear a construção – virtualmente ex nihil – de uma cidade. Embora seja verdade que o projeto ao qual se lança o filósofo grego é repleto de abstrações e de sugestões impraticáveis, muitos dos princípios apresentados são verdadeiros. Como, por exemplo, o trecho em epígrafe, que trata sobre a educação das crianças (no caso particular da obra, das crianças que serão soldados, mas é válido para a educação das crianças no geral), e diz que, neste particular de extrema importância, nem tudo é conveniente e algumas coisas podem e devem ser proibidas. Censuradas.

A palavra “censura” é capaz de provocar horror diante de alguns paladinos dos (supostos) direitos humanos modernos, fazendo-os rasgarem as vestes e soltarem gritos histéricos de repulsa. Associam-na imediatamente (talvez porque rime) com outra palavra à qual eles têm horror absoluto, que é “ditadura”. Não pretendo tratar dos dois assuntos, que – ao contrário do que muitos podem querer fazer acreditar – são bastante diversos. Apenas lembro que a histeria supramencionada é particularmente ativa em uma espécie de gente que, em maior ou menor grau, do flerte ao concubinato, é simpática às idéias esquerdistas; o que não deixa de ser cômico, porque o marxismo, não somente em suas manifestações históricas (URSS, China, Cuba) como também em seus princípios, é abertamente ditatorial ([a] purificação da sociedade dos males feudais só é possível se o proletariado, liberto das influências dos partidos burgueses, for capaz de se colocar à frente do campesinato e estabelecer sua ditadura revolucionária. Marx & Engels, “Manifesto do Partido Comunista”). Para essa gente, as mesmas coisas são, ao mesmo tempo, enorme virtude ou pecado abominável, dependendo somente se são aplicadas por elas ou contra elas. É um impressionante cinismo.

Embora todas as ditaduras comunistas apliquem descaradamente a censura (ao mesmo tempo em que todos os esquerdistas repudiam completamente quer a censura, quer as ditaduras), é preciso deixar claro que a censura, como inúmeras outras coisas, não é uma coisa má em si. Ela pode ser má ou boa, infame ou virtuosa, dependendo daquilo que é censurado e do porquê da censura. Um regime assassino censurar a pregação do Evangelho é evidentemente uma coisa má; mas os pais censurarem as coisas que os filhos vêem na internet é uma coisa boa, justa e necessária até. Repetimos o que foi dito acima: o erro não tem direitos. O que a Igreja condenou não foi a censura, e sim – ao contrário – a “liberdade absoluta”: a liberdade de pensar e publicar os próprios pensamentos, subtraída a toda regra, não é por si um bem de que a sociedade tenha que se felicitar; mas é antes a fonte e a origem de muitos males (Leão XIII, Immortale Dei, 38).

Digamos, pois, ousadamente, que a censura é necessária, sim; não censura da Verdade (como nos países comunistas), mas censura dos erros e dos vícios, dentros dos justos limites: porque é verdade que há as liberdades individuais, mas há também o bem comum que precisa ser especialmente considerado. Em particular, os pais têm o direito de educarem os seus filhos na Lei de Deus e, por conseguinte, têm o direito de não quererem expôr as suas crianças aos erros e aos vícios. A bandeira da “liberdade absoluta” ostentada por esquerdistas e filo-esquerdistas é falsa em si (já que a liberdade absoluta é um grande mal) e cínica considerando os que a levantam (já que não há liberdade nos países comunistas). O espantalho não nos assusta. Há um Deus, há uma Verdade e, por conseguinte, há coisas dignas de louvor e coisas dignas de repreensão, não sendo justo que ambas tenham o mesmo tratamento – certas coisas podem e devem ser censuradas. Afinal, as coisas justas são dignas de serem incentivadas e, as ímpias, de serem reprimidas, se quisermos que os nossos jovens “sejam tementes aos deuses e semelhantes a eles, na máxima medida em que isto for possível ao ser humano” (Platão, op. cit., p. 73).

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Nada como o Google! Já tinha ouvido falar sobre o projeto Orvil – documento elaborado pelas Forças Armadas sobre o comunismo em geral e sobre as tentativas de implantação do regime assassino no Brasil em particular -, mas nunca havia tido acesso à documentação na íntegra e, para ser sincero, não sabia nem que ela era pública.

Qual não foi, então, a minha grata surpresa ao encontrar, procurando o livro “A Verdade Sufocada” do Coronel Carlos Brilhante Ustra, um artigo introdutório sobre o projeto Orvil seguido do link para o livro completo, digitalizado! Preciosa documentação! É uma pena que as fotos estejam completamente irreconhecíveis, mas o texto está todo lá (são 953 páginas) e permite busca textual no arquivo .pdf (embora com alguns erros de reconhecimento). “Folheando” o livro, encontrei coisas como as seguintes:

Em Goiás [em 1950], o movimento camponês, liderado por José Porfirio e infiltrado pelo PCB, chegou a formar um “território livre” de 10 mil km², com governo paralelo e milícias armadas, sob a égide de uma Constituição própria que definia o Estado como popular e socialista (p.57).

Na tarde do dia 2 de abril de 1964, mais de um milhão de pessoas lotavam as ruas e praças centrais do Rio de Janeiro. A população irmanada – operários,estudantes, senhores idosos e crianças, todas as profissões, todas as categorias sociais e todos os credos – reunia-se na maior manifestação popular que o Brasil jamais vira. Chuvas de papéis picados, jogados dos edifícios, atapetavam de branco as ruas e calçadas. Bandeiras brasileiras coloriam o espetáculo. Faixas repudiavam o comunismo. Em cima dos carros, pessoas carregavam flores, rejubilando-se pela vitória da democracia. Os jornais do dia saudaram a retomada da democracia. As rádios e canais de televisão cobriam a manifestação, transmitindo, para todo o país, os discursos inflamados.

Era a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, um movimento de cunho nacional em defesa do regime e da Constituição e que já se realizara, com êxito, em São Paulo, Belo Horizonte, Santos e Porto Alegre. Programada com antecedência, no Rio de Janeiro, transformara-se, de protesto contra o caos do governo anterior, em júbilo pela vitória da democracia (p. 111-112).

Nos meses subseqüentes [em 1969], a ALN realizou uma série de assaltos a bancos, supermercados e empresas de transporte coletivo e de atentados a bomba, dos quais se destacam o atentado ao Palácio Episcopal, em 6 de agosto, e o metralhamento, em 24 de agosto, da vitrina da loja “Mappin”, que expunha material alusivo à Semana do Exército (p. 329)

Nestes nossos dias em que a História é reescrita pelos derrotados de outrora, uma documentação como esta é fundamental para que possamos entender o que aconteceu no nosso país há poucas décadas, bem como sobre o que está acontecendo agora e o que pode vir a acontecer. Os criminosos perderam a guerra, mas não desistiram. E nós não podemos ficar passivos diante da desconstrução histórica à qual somos submetidos diuturnamente. Houve um dia em que o povo brasileiro lotou as ruas para se opôr aos criminosos comunistas; se for utópico demais desejar uma segunda Marcha da Família, ao menos respeitemos a memória dos nossos pais e avós, não colaborando com a reelaboração da História que nos é imposta pelos que hoje estão no poder.

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5 – O dia em que a prefeita não pôde comungar & “Colocá-lo após dom Hélder foi uma grande burrice”

Desta vez, nem é necessário falar muito. Os próprios artigos do JC redundam em elogios ao Arcebispo, pelo fato de que atacar um vício é enaltecer a virtude oposta. Ao “condenarem” Dom José Cardoso por ele fazer coisas que um Bispo Católico poderia e deveria fazer, isso é motivo de honra para Sua Excelência e de júbilo para os católicos verdadeiros.

Por exemplo, quando foi dito à prefeita comunista de Olinda que ela não poderia comungar. É claro que ela não pode, por ser comunista, dado que a comunhão é para os católicos e ninguém pode ser comunista e católico ao mesmo tempo. E não se trata de pecado oculto, senão de manifesto – posto que a opção política da prefeita de Olinda é pública – de modo que a comunhão pode e deve ser negada. O jornal chama isso de gesto pequeno e (…) uso da autoridade para fazer valer a sua vontade; mas os católicos sabem que se trata de um gesto eloqüente de fidelidade à missão de Pastor. Aplausos para Dom José!

O mesmo no que se refere à igreja das Fronteiras. Pouco importa se ela é símbolo maior do arcebispado de Dom Hélder ou não; o fato é que ela pertence à paróquia da Soledade e procurar conhecer os seus fiéis é uma prescrição feita ao pároco pelo Direito Canônico (cf. CIC 529 §1), sendo a coisa mais natural do mundo que o novo pároco da Soledade fosse até a igreja das Fronteiras. Aliás, o antigo pároco, quando soube do afastamento, fez um escândalo e, na homilia, garantiu que, se pudesse, dava uma surra no bispo e ameaçou voltar para a comunidade (…) quando dom José (…) se aposentar… isto poderia explicar porque o grupo de leigos das Fronteiras marcou posição e botou o padre para correr. Apesar das semelhanças, padre Renaldo – ao contrário do que eu supus a princípio – não era o responsável de facto pela igreja das Fronteiras (embora, por ser o pároco, fosse-o de direito). Mas, pelas atitudes das ovelhas, é possível imaginar o que elas estão aprendendo do pastor. Lamentável.

Por fim, o jornal tenta ridicularizar o arcebispo expondo um acidente que ele sofreu, [n]o enterro de dom Francisco Austregésilo, bispo emérito de Afogados da Ingazeira. Na versão impressa do jornal, há até uma foto! Qual é a relevância desta informação, ainda publicada com os gracejos do articulista? Expôr o Arcebispo ao ridículo, somente. Quando não há mais o que se falar, a zombaria pura e simples é o artifício do qual lança mão o JC…

A seguir, uma entrevista com Frei Betto! Estranho seria se este projeto de religioso que envergonha São Domingos estivesse de acordo com o Arcebispo! A divergência é mais uma vez eloqüente: para os católicos verdadeiros, é mais um indício de que quem está com a razão é Dom José Cardoso. Afinal, frei Betto, só nesta entrevista, diz as seguintes pérolas:

Dom José é reflexo de uma profunda vaticanização que tem ocorrido no episcopado brasileiro.

Eu acho criminoso você hoje ser contra o preservativo, você facilitar a disseminação de um vírus mortal e que não tem cura como o HIV. E querer impor uma atitude moral que é muito própria da Igreja Católica, mas não é conveniente para o conjunto da sociedade.

Deus não tem religião e a obra dele vai continuar, seja com a Igreja Católica ou seja sem ela.

Não há necessidade de se fazer mais comentários. Só registro, por fim, uma confissão de frei Betto: perguntado pelo repórter se o sucessor de Dom José pode dar ao arcebispado a cara de dom Hélder, responde o “religioso”: [s]e houver suficiente pressão dos leigos e padres, talvez. É impressão minha, ou a imprensa recifense – o Jornal do Commercio, em particular – está justamente a serviço dessa “pressão” que deseja, para Olinda e Recife, uma igreja diferente da Igreja Católica?

* * *

Anexo 1 – .O adeus do arcebispo

O dia em que a prefeita não pôde comungar
Publicado em 04.07.2008

Dom José está acostumado com as manchetes de jornais. Suas polêmicas ganharam destaque e repercussão na imprensa ao longo desses 23 anos. Alguns episódios, no entanto, foram mantidos em sigilo pelas pessoas atingidas para evitar ainda mais desgastes. O JC conta agora duas histórias que revelam muito da personalidade do frade carmelita. O primeiro é o caso do arcebispo e a prefeita comunista. O segundo, a tentativa de tomada do reduto de dom Hélder: a Igreja das Fronteiras. Em comum, o gesto pequeno e o uso da autoridade para fazer valer a sua vontade.Novembro de 2004. Procissão de São Salvador do Mundo, padroeiro de Olinda. Como fazia há anos, a prefeita Luciana Santos acompanhava a missa em homenagem ao santo. Estava num banco da igreja, quando um emissário do arcebispo de dom José Cardoso, chegou junto e cochichou ao seu ouvido. Trazia um recado constrangedor. Ela não deveria entrar na fila de comunhão. Por ser comunista, não acreditava em Deus e não tinha o direito de receber o corpo de Cristo. Véspera de eleição, Luciana, candidata à reeleição, preferiu não criar caso. Não entrou na fila para comungar, nem falou nada para a imprensa. Assistiu ao restante da missa e foi embora.

Quando chegou ao Recife, dom Hélder não quis a suntuosidade do Palácio dos Manguinhos para fazer sua morada. Preferiu a simplicidade da Igreja das Fronteiras, na Boa Vista. Pois foi esse lugar, símbolo maior do arcebispado de dom Hélder, que dom José quis tomar no ano passado. Quando tirou o padre da Igreja da Soledade e colocou em seu lugar um jovem recém-ordenado, ele enviou o novo pároco para conversar com os leigos que tomavam conta das Fronteiras. Como a igreja faz parte da paróquia da Soledade, o padre chegou dizendo que queria conhecer suas ovelhas e que a partir dali passaria a celebrar as missas na igreja de dom Hélder. O grupo marcou posição e botou o padre para correr. E até hoje as missas são celebradas pelo padre João Pubben, o mesmo que nos últimos de dom Hélder ajudou o arcebispo a abençoar seu rebanho.

Em outubro de 2006, no Sertão, foi a vez do próprio dom José Cardoso passar por uma situação delicada. Só que a presença de fotógrafos impediu que o fato fosse esquecido pela história. No enterro de dom Francisco Austregésilo, bispo emérito de Afogados da Ingazeira, dom José caiu na sepultura, depois de tropeçar num batente. E precisou de ajuda para sair do buraco.

Anexo 2 – O. adeus do arcebispo

ENTREVISTA » FREI BETTO
“Colocá-lo após dom Hélder foi uma grande burrice”
Publicado em 04.07.2008

[O] escritor Frei Betto diz que a Igreja precisa se penitenciar. Admitir que errou e que foi um retrocesso ter colocado um homem como dom José Cardoso numa arquidiocese como a de Olinda e Recife. E avisa: se a Santa Sé continuar defendendo um pensamento anacrônico, vai perder ainda mais fiéis.

JC – Dom José é criticado pelo desmonte que promoveu na arquidiocese. Mas suas ações representam o pensamento cada vez mais conservador da Igreja de Roma. Há como avaliá-lo sem analisar os rumos que a Igreja tomou?FREI BETTO – Não. Dom José é reflexo de uma profunda vaticanização que tem ocorrido no episcopado brasileiro. Do ponto de vista mais específico da Arquidiocese de Olinda e Recife, foi um grande equívoco, depois de um dom Hélder, colocar ali um homem que é a negação de tudo que dom Hélder representou e realizou. Analisando por um olhar de marketing, foi uma grande burrice. Porque não dá continuidade a uma obra. A Igreja fica se queixando do avanço das outras igrejas neopentecostais. Mas, antes de criticar, deveria se penitenciar do seu recuo, do seu retrocesso, quando nomeia um homem como dom José para ficar à frente de uma arquidiocese que foi encabeçada por um dom Hélder Câmara por tantos anos.

JC – A perseguição a padres foi uma das marcas do arcebispado de dom José. Como falar em perdão e tolerância numa Igreja que pune e não respeita as diferenças de visão pastoral?

FREI BETTO – É uma boa pergunta para ser feita a ele. Não sei se ele fará essa penitência. Não é compatível com o evangelho novo exercer uma função pastoral na base da perseguição, da injustiça, e até mandando a polícia para situações que poderiam ser resolvidas pelo diálogo, sobretudo considerando que os sacerdotes são filhos da Igreja e não inimigos. Mesmo que eles não estejam de acordo com seus pastores.

JC – Uma das últimas polêmicas de dom José foi se posicionar contra a distribuição de camisinha no Carnaval deste ano. Como manter um discurso conservador no momento em que questões como aids, gravidez precoce e célula-tronco são tão urgentes para a sociedade?

FREI BETTO – Eu acho criminoso você hoje ser contra o preservativo, você facilitar a disseminação de um vírus mortal e que não tem cura como o HIV. E querer impor uma atitude moral que é muito própria da Igreja Católica, mas não é conveniente para o conjunto da sociedade. Então eu acho que realmente é outro anacronismo que precisa ser vencido.

JC – Qual o futuro da Igreja no Brasil, um país desigual e cujo rebanho de católicos está encolhendo?

FREI BETTO – Depende de a Igreja ser capaz de fazer uma autocrítica, conseguir se libertar da hegemonia do modelo paroquial, que é um modelo pré-moderno, pré-urbano, que parte do princípio de que as pessoas se relacionam pela proximidade geográfica, quando hoje meu melhor amigo pode morar em Tóquio e eu posso sair dessa entrevista e falar com ele pela internet. E tenho talvez mais diálogo do que com meu vizinho. Enfim, a Igreja Católica tem que repensar seus métodos pastorais de evangelização e a sua postura nesse mundo pós-moderno. Caso contrário, vai continuar encolhendo. Felizmente, Deus não tem religião e a obra dele vai continuar, seja com a Igreja Católica ou seja sem ela.

JC – Como será o perfil do possível substituto de dom José?

FREI BETTO – Possivelmente, não será uma pessoa tão conservadora. Eu ouvi de cardeais conservadores, que não vou revelar o nome, que foi um equívoco ter nomeado dom José para o Recife, mas que não poderiam dar o braço a torcer. Então, possivelmente será um bispo moderado. Eu colocaria na lista de apostas um nome: dom Geraldo Lírio, atual arcebispo de Mariana e presidente da CNBB. Não me surpreenderei se ele for transferido para o Recife. É um homem moderado.

JC – Ele pode dar ao arcebispado a cara de dom Hélder?

FREI BETTO – Se houver suficiente pressão dos leigos e padres, talvez. Geraldo foi meu amigo em Vitória (ES), quando era padre. Nós trabalhamos juntos. Mas, às vezes, eu temo que a mosca azul esteja rondando Geraldo.

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