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Archive for janeiro \30\UTC 2009

Rápidas sobre a política nacional e internacional: aqui no Brasil, foi aprovado em dezembro (e eu só o soube esta semana) um projeto de lei que prescreve a distribuição gratuita, pelo SUS, de seringas descartáveis para usuários de drogas. Ao menos o tal projeto “será analisado ainda pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ)”, e esperamos sinceramente que este absurdo não seja aprovado. No entanto, é já de se lastimar profundamente que ele tenha passado na Comissão de Seguridade Social e Família!

Nada me convence da eficácia – nem mesmo de um ponto de vista meramente naturalista – destas políticas de “redução de danos”. Afigura-se-me um absurdo completo a própria noção de que o Estado deva subsidiar o vício (criminoso) de seus súditos. Ao mesmo tempo em que coisas que têm uso lícito, como o álcool e o fumo, são demonizadas (nunca vi uma política de disponibilização de motoristas para os cidadãos que quisessem se embriagar nos finais de semana, por exemplo), as drogas ilícitas caem nas graças do Estado às custas dos contribuintes [utilizo aqui “lícito” e “ilícito” do ponto de vista moral, e não meramente legal]. Não consigo vislumbrar o futuro que pode ter a Família brasileira, quando uma comissão que (teoricamente) representa os seus interesses dá parecer favorável a um dos mais terríveis inimigos da estabilidade familiar, que é o vício em drogas.

No mundo, parece que os militares norte-americanos não estão lá muito satisfeitos com a política do presidente Obama. Em Guantánamo, o juiz militar James Pohl  manteve uma audiência contra um saudita que já estava marcada, a despeito da ordem presidencial de suspender todos os processos por quatro meses; sobre a Guerra do Iraque, o general Ray Odierno  (que é chefe das forças americanas e aliadas no Iraque) propôs a retirada de apenas duas brigadas de combate americanas nos próximos seis meses – contrariando a promessa de campanha do presidente, que era a de retirar uma brigada por mês pelos próximos dezesseis meses.

Aliás, o que o Olavo de Carvalho fala sobre ele é engraçado. É ad hominem e nem de longe pode ser considerado o mais preocupante, mas é para se rir:

Diante de milhões de espectadores, ele [Barack Obama] declarou que seu trecho predileto do Novo Testamento é João 16:3. Queria dizer, é claro, João 3:16, o versículo central do cristianismo: “De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito, para que todo aquele que creia nele não pereça, mas tenha a vida eterna.” E João 16:3, o que diz? Bem, depois de Spike Lee ter afirmado que Deus enviou a crise econômica com a única finalidade de eleger Obama, não serei considerado mais louco do que o trêfego cineasta se enunciar uma hipótese teológica bem mais modesta, a de que o versículo intruso foi não apenas o objeto da gafe presidencial, mas também a sua explicação divina, didática e exemplar, soprada pelos anjos ao ouvido do orador para que se autodenunciasse. Nele Jesus diz: “Farão isso porque não conheceram ao Pai nem a Mim.”

Deus tenha misericórdia de nós todos.

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[Publico apressadamente a tradução de um post de hoje do Dinoscopus, que se apresenta como sendo o lugar das “colunas semanais do bispo Richard Williamson, da Fraternidade Sacerdotal São Pio X”. Não conhecia este blog; publico no entanto com a esperança de que a notícia seja verdadeira, e Nosso Senhor, acordado pelas nossas súplicas, possa acalmar a tempestade que se abateu nos últimos dias sobre a Igreja.

(P.S.: o Fratres in Unum acabou de publicar a mesma carta.)

Trata-se de uma carta de Dom Williamson pedindo perdão ao Santo Padre e ao cardeal Catrillón Hoyos pelo mal-estar causado por suas declarações referentes ao Holocausto na televisão sueca.]

A Sua Eminência, Cardeal Castrillón Hoyos

Vossa Eminência,

No meio desta tremenda tempestade da mídia ensejada por observações imprudentes feitas por mim na televisão Sueca, imploro a V. Ema. que aceite, enquanto é devidamente respeitoso [only as is properly respectful], meu sincero pesar por ter causado a V. Ema. e ao Santo Padre tantas aflições e problemas desnecessários.

Quanto a mim, tudo o que importa é a Verdade Encarnada, e os interesses de Sua Única e Verdadeira Igreja, através da qual somente [through which alone] nós podemos salvar as nossas almas e dar eterna glória, a nosso pequeno modo, ao Deus Todo-Poderoso. Tenho apenas um comentário, do profeta Jonas, I, 12:

“Tomai-me, disse Jonas, e lançai-me às águas, e o mar se acalmará. Reconheço que sou eu a causa desta terrível tempestade que vos sobreveio”.

Por favor também aceite, e transmita ao Santo Padre, meus sinceros agradecimentos pessoais pelo documento assinado na última Quarta-Feira e tornado público no sábado. O mais humildemente possível [most humbly], eu irei oferecer uma missa para ambos.

Sinceramente vosso em Cristo,

+ Richard Williamson

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Em entrevista ao Corriere della Sera, que chegou até mim pelo Rorate Caeli [ pdf em italiano aqui ], o cardeal Castrillón afirma: “A plena comunhão chegará. Na nossa conversa, Mons. Fellay reconheceu o Concílio Vaticano II, o reconheceu teologicamente. Restando apenas algumas dificudades”.

Parece-me sem dúvida uma excelente notícia. A repercussão e comentários só os terei amanhã. É provável que Jorge comente o assunto antes de mim.

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Recebi por email esta mensagem (sobre a guerra de Israel), no formato de apresentação de Power Point, e estou reproduzindo aqui como galeria de imagens para melhor visualização. Infelizmente, não constam no anexo original os créditos; não sei, portanto, a autoria dos slides, que aqui reproduzo integralmente como recebi. Se alguém o souber, eu agradeceria imensamente a informação. Publico porque, a despeito de desconhecer a fonte, as informações passadas são verossímeis e discursos análogos são encontrados em outros veículos de comunicação que fogem um pouco à hegemonia esquerdista, o que confere credibilidade à mensagem recebida. Rezemos pelo Oriente Médio.

P.S.: Conforme me foi pedido, o arquivo .ppt original que recebi por email está aqui.

P.S. 2: Já teci antes comentários sobre o conflito na Faixa de Gaza aqui; antes que me acusem de canonizar os judeus, enfatizo que o que escrevi anteriormente permanece sendo a maneira como vejo o problema.

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[Publico o artigo a seguir para registro, porque não o encontrei na internet, a despeito de tê-lo recebido por email. Data vênia, não concordo com todas as considerações feitas pelo reverendíssimo sacerdote. É simplesmente falso que “o papa jamais poderia revogar uma excomunhão justa” – é lógico que pode, porque a aplicação de um remédio justo pode dar lugar à aplicação de um outro remédio também justo, de acordo com o que convenha a cada situação. Isso não se deve atribuir a uma “irresponsabilidade” do Santo Padre, e sim ao discernimento pessoal do Vigário de Cristo, auxiliado pela graça de estado que tem o sucessor de Pedro no governo da Igreja.

É também da mais alta relevância enfatizar de novo, à exaustão, que Mons. Lefebvre foi excomungado não por ter reservas quanto ao Concílio Vaticano II e a Missa Nova, e sim por ter sagrado bispos sem mandato pontifício! Isso precisa ficar muitíssimo claro. Dizer que a retirada da excomunhão dá “carta branca” para que se esculache com um Concílio Legítimo da Igreja é, primeiro, falsear a realidade, posto que a excomunhão nada teve a ver com o Concílio e, portanto, também a sua retirada não o tem; e, segundo, é simplesmente não perceber que existe uma gama enorme de matizes entre o ensino “que deve ser acatado com fé divina e católica por ser dogma” e o ensino “que deve ser repudiado em consciência por ser heresia”. O maniqueísmo de alguns católicos é curioso, mas não encontra respaldo no pensamento católico.

Ademais, é estranha e se distancia da realidade a atitude de se procurar “colocar palavras na boca do Papa” – ou acrescentar linhas ao decreto de retirada das excomunhões -, propagando leituras (questionáveis) de supostas entrelinhas como se fossem a mais perfeita expressão do pensamento pontifício, mesmo quando o Papa as contradiz expressamente. Entre os “comentadores” do Papa e o próprio Papa, ficamos com este último, pois sabemos que é somente em comunhão afetiva e efetiva com ele que podemos estar em comunhão verdadeira com a Igreja de Nosso Senhor.]

Salve Bento XVI! Salve Mons. Lefèbvre!

Pe. João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

A caridade não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. (I Cor, 13, 6)

Como se sabe, os modernistas têm um conceito falso de caridade. Separam o amor da verdade, a vontade da inteligência. São voluntaristas. Fanáticos. Caprichosos. Obstinados.

Guiados apenas por suas paixões e preconceitos, sem a luz da razão e da fé, os modernistas costumam emitir juízos disparatados com a pretensão de justificar qualquer comportamento à margem da lei moral. Em nome da caridade defendem todos os vícios e pecados. Distorcem aquelas palavras do Apóstolo: “a caridade cobre a multidão dos pecados.”

Além de um falso conceito de caridade, os modernistas, como disse São Pio X, são hipócritas. E agora, com a anulação da excomunhão de Mons. Lefèbvre por decisão do Papa Bento XVI, temos mais uma prova disso.

Contradizendo suas próprias idéias teológicas que alargam indefinidamente as fronteiras da Igreja, quase que identificando-a com a humanidade, os modernistas hipocritamente taxavam a Fraternidade Sacerdotal São Pio X de cismática, fascista e não sei quantos epítetos mais.

Pois bem. Ao interpretar o decreto do papa de anulação das excomunhões dos chamados bispos tradicionalistas, os modernistas querem aplicar ao papa Bento XVI o conceito herético e liberal de caridade. Quer dizer, o papa teria agido por uma misericórdia acima de toda justiça, por um puro gesto de perdão, ao retirar a pena sem que houvesse uma manifestação de arrependimento da parte dos “cismáticos”. A ação de Bento XVI seria inexplicável logicamente.

Ora, isto constitui uma injúria ao papa. Equivale a atribuir-lhe um procedimento irresponsável no governo da Igreja. O papa jamais poderia revogar uma excomunhão justa. A excomunhão é uma pena medicinal para emenda do autor do delito e preservação do bem comum da Igreja. Enquanto subsiste a culpa do delito ou o requer o bem da Igreja, a pena deve subsistir.

Bento XVI revogou as excomunhões declaradas em 1988 porque tem consciência de que eram injustas. Isto está patente em sua carta de apresentação do motu proprio Summorum Pontificum em que ele diz aos bispos que houve omissão da Igreja no zelo pela sua unidade. E em outras ocasiões criticou aqueles que pretendem fazer do Vaticano II um “super concílio” acima de todos os outros.

Se a posição crítica de Mons. Lefebvre às reformas emanadas do Vaticano II fosse um pecado, se o Vaticano II fosse um concílio dogmático que obrigasse os católicos a acatá-lo em sua inteireza, se não fosse lícita uma objeção de consciência às passagens ambíguas e contraditórias do Vaticano II comprovadas por teólogos e estudiosos das mais diferentes tendências, a autoridade suprema da Igreja não poderia levantar as excomunhões dos quatro bispos reabilitando assim a memória de Mons. Lefèbvre e de D. Castro Mayer.

Em suma, Bento XVI agiu, sim, com caridade. Mas com caridade católica, verdadeira, tradicional, aquela que se rejubila com a verdade. Ele sofria com a injustiça cometida contra Mons. Lefèbvre e os tradicionalistas e quis repará-la. Ao contrário, os modernistas hipócritas tinham prazer em apodar os tradicionalistas como seita excomungada, alegravam-se com a injustiça, porque a excomunhão atendia aos seus interesses diabólicos de afastar os católicos da tradição da Igreja.

Para remate dessas considerações, acode-me à memória o comentário de Santo Agostinho ao Salmo 128: Saepe expugnaverunt me a iuventute mea. Explica Santo Agostinho que essas palavras se referem à Igreja sempre combatida pelos maus elementos que nela vivem, tentando seduzir e enredar os bons em seus maus caminhos. Assim os modernistas infiltrados na Igreja. Mais adiante diz o salmo: Etenim non potuerunt mihi. Supra dorsum meum fabricaverunt peccatores, prolongaverunt iniquitatem suam. Explana o Santo Doutor: “Quantos males suportamos, quantos escândalos suportamos por parte dos maus dentro da Igreja (…) Mas não conseguiram que os bons consentissem com eles no mal.” Assim também hoje os modernistas enfurecidos com o papa o difamam, ameaçam, dizem que é nazista etc, mas não o dobram (potuerunt mihi).

Em seguida diz o Salmo: Fiant sicut faenum tectorum quod priusquam evellatur exaruit. Assim são os modernistas na Igreja: como erva que nasceu sobre o telhado de uma casa e secou antes de arrancada. Os modernistas no alto de sua insolência secaram, murcharam sem necessidade de ser arrancados do telhado da Igreja. Embora excomungados por São Pio X, conseguiram permanecer no interior da Igreja fazendo o mal, mas por fim secaram porque não tinham raízes. Basta agora um vento mais forte soprado por Deus para caírem como erva seca a ser queimada.

Portanto, salve o Papa! Salve Mons. Lefèbvre! Parabéns aos bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X!

Anápolis, 27 de janeiro de 2009
Festa de São João Crisóstomo, Bispo e Doutor da Igreja.

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Acabei de receber (junto com mais não sei quantas pessoas, já que a lista dos destinatários estava em bcc) um email de uma certa “católica” amiga nossa. O título era “Papa Bento XVI azedou o dia internacional do Holocausto”, e reproduzia o artigo estúpido que já comentei aqui de manhã. Além do artigo, uma única frase da lavra da remetente:

Os queridos Papas Paulo VI e João Paulo II devem estar chorando de tristeza, de ver os infiéis excomungados serem perdoados apesar de continuarem no erro.

Vivemos tempos cruéis…

P.S.: a identidade da remetente é óbvia, mas é desnecessário dizê-lo. Trago o exemplo somente para ilustrar as atitudes de certos “católicos”, diametralmente opostas àquilo que se esperaria de um filho da Igreja. Saibamos que a Esposa de Cristo sofre ataques por dentro e por fora; rezemos em desagravo, e empenhemo-nos no combate com um ardor renovado, por nós e pelos outros, uma vez que parte considerável do exército é desertora e prefere cerrar fileiras com o inimigo.

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trionfosantommaso
[Benozzo Gozzoli (1421-1497), Trionfo di san Tommaso, 1471, Louvre, Parigi.]

Hoje a Igreja celebra Santo Tomás de Aquino, o mais santo dos homens sábios e o mais sábio dos homens santos. Recomendamo-nos à intercessão do Doutor Angélico; que aprendamos dele a colocar todos os dons com os quais a Divina Providência nos agraciou a serviço de Deus e de Sua Santa Igreja.

Além da verdade que não se pode conhecer sem a revelação divina, muitas verdades há que não estão fora do alcance da razão humana, mas foram, não obstante, reveladas por Deus ao homem. Por que? Porque é necessário à salvação do homem que estas verdades sejam conhecidas, e, desde que, por várias razões, nem todos os homens são capazes de descobri-las através da indagação filosófica, Deus revelou-as a todos. Ainda que reveladas a todos, estas verdades são cognoscíveis racionalmente. Toda investigação racional dedicada à investigação daquilo que, muito embora revelado por Deus, é conhecível racionalmente, constitui parte da Teologia, tal como a entende S. Tomás de Aquino.

Um fato basta para prová-lo. A Summa Contra Gentiles é um tratado puramente teológico. Foi às vezes chamada a “Suma filosófica” porque contém de fato grande proporção de especulação puramente racional. Mas o prólogo mostra, de modo claro, que a intenção do autor, ao escrevê-la, foi puramente religiosa. Reconhecemos aí o Dominicano que estamos habituados a ouvir na Summa Theologiae, quando, no capítulo II da Contra Gentiles, S. Tomás faz suas as palavras de S. Hilário: “Estou consciente de que devo a Deus a principal obrigação de minha vida, que minha palavra e minha inteligência possam falar dele.” Além disso, São Tomás diz (C.G. II, 4, 6) que, na Contra Gentiles, ele segue a ordem teológica que procede de Deus para a criatura, e não a ordem filosófica que procede da criatura para Deus. Qual é, na Contra Gentiles, a proporção da especulação destinada às verdades reveladas que são inacessíveis à razão sem o auxílio da Fé? Uma quarta parte do todo. O próprio S. Tomás de Aquino o diz. No Prólogo do Lv. IV. 1, 10, S. Tomás assinala a mudança de atitude, de método e de ordem: “no que precede, as coisas divinas foram objetos de exposição na medida em que a razão natural pode obter conhecimento delas pelas criaturas: imperfeitamente, é claro, e conforme à capacidade de nossa inteligência… Agora resta falar daquilo que foi divinamente revelado para nós como algo que se deve acreditar, pois que excede à razão.” Portanto, na Summa Contra Gentiles, três partes da obra estudam as verdades acessíveis à razão humana; e ainda assim todas as coisas nela são Teologia. Evidentemente, S. Tomás adotou este plano porque desejava mostrar aos pagãos e infiéis, que não acreditavam nas Escrituras, quão longe a razão humana pode ir sozinha a caminho da revelação cristã, mas, proceder assim, é precisamente o que São Tomás de Aquino chama ensinar Teologia. Tudo o que está na Contra Gentiles, inclusive a ordem de exposição, é Teologia. Tudo o que está na Summa Theologiae (e o próprio nome bastaria para o tornar claro), é Teologia. Numa palavra, tudo o que ensinamos nas Escolas como Filosofia de São Tomás de Aquino, foi primeiro ensinado por ele nos tratados teológicos, como parte da verdade teológica.

Seja portanto isto ponto pacífico: como a Teologia inclui tudo o que se pode conhecer à luz da revelação, inclui o que S. Tomás chamou: “a verdade sobre Deus alcançada pela razão natural”, e que, no entanto, Deus “convenientemente propôs ao homem para crer” (C. G. I, 4, título). Isto não é tudo. Além daquilo que o homem não pode conhecer sem a revelação, e além daquilo que o homem conhece, de modo mais fácil e perfeito se lhe é revelado, há o imenso campo de tudo aquilo que, embora não atualmente revelado, pode ser usado pelos teólogos como meios para estabelecer, de modo racional, a verdade revelada, quando isto é possível, ou, ao menos, para defendê-la contra as objeções dos adversários. Na doutrina de São Tomás de Aquino, tudo o que pode servir ao principal objetivo do teólogo, que é fazer conhecer melhor o sentido da verdade revelada, é, pela mesma razão, Deus que a revelou sob a razão formal da revelação, e, portanto, pode incluir-se na Teologia. S. Tomás de Aquino não fixou limites à extensão possível do campo da especulação teológica. Chama revelabilia, “revelável” todo o material não especificado que, segundo o seu talento, gênio, ou aprendizado pessoal, o teólogo pode pôr a serviço da Teologia.

A Filosofia, incluindo todas as ciências que esta palavra evocava na linguagem de Santo Tomás, pode, portanto, integrar-se na Teologia, sem abdicar de seus métodos próprios ou quebrar a unidade da sabedoria teológica. A serviço da Teologia a Filosofia guarda as suas características, mas serve a um fim mais alto.

Esta noção elevada da Teologia assume sentido total à luz de uma observação feita várias vezes por Santo Tomás de Aquino, à qual ele dá grande relevância, ao passo que nós relegamos como não importante para nossos problemas. “Os objetos que são matérias das diferentes ciências filosóficas podem ser ainda tratados por esta única doutrina sagrada, sob um aspecto, a saber, na medida em que são divinamente reveláveis. Deste modo, a doutrina sagrada traz a marca da ciência divina, que é uma e simples, ainda que se estenda a todas as coisas.” (S. Teol. Ia., q. 1, a. 3, ad 2 um).

Estamos no centro da noção tomista de Teologia, concebida como ciência. Todo o saber humano está, nessa concepção, à disposição do teólogo, que dele se serve em vista do seu fim. Não há limites? Sim, realmente, há limites. Nem todo conhecimento humano é igualmente importante para a interpretação da verdade revelada. Ainda assim, esta restrição se deve antes às limitações do homem do que aos objetos das disciplinas filosóficas ou científicas. Na ciência divina, nada conhecível é sem importância para Deus. Na ciência teológica, nada do que nos pode fazer conhecer melhor a Deus é sem importância. Como diz S. Tomás de Aquino na Contra Gentiles, com energia insuperável: muito embora instrua o homem principalmente sobre Deus, a fé cristão faz também do homem, “através da luz da revelação divina, um conhecedor das criaturas” (per lumen divinae revelationis eum criaturaram cognitorem facit), de tal modo que “nasce, então no homem uma espécie de semelhança com a sabedoria divina” (C. G. II, 2, 5). E, realmente, se a Teologia pudesse conhecer as coisas como Deus as conhece, conheceria todas as coisas sob uma só luz, a luz divina. Não é esse conhecimento acessível ao homem nesta vida, mas, a Teologia, pelo menos, nos dá uma pálida idéia da espécie de conhecimento que é aquela sabedoria, que tudo abrange.

[Étienne Gilson, “O Doutor da Verdade Cristã”]

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