Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘padre antônio vieira’

[Neste primeiro Domingo da Quaresma, publico o sermão seguinte do pe. António Vieira, proferido à mesma ocasião, em 1665. Gosto particularmente deste; é muito longo e, para facilitar a navegação pelo blog, vou pôr uma quebra, bastando clicar nela para que se leia a obra na íntegra.

Apenas lembrando, estes e outros sermões do pe. António Vieira estão disponíveis para download aqui.]

SERMÃO DA PRIMEIRA

DOMINGA DA QUARESMA,

PREGADO NA CAPELA REAL,
NO ANO DE 1655.

Ostendit ei omnia regna mundi, et gloriam eorum,
et dixit ei: Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me.
1

§I

Como o demônio dos remédios faz tentações, nós, das tentações, façamos remédio, sendo liberais com o demônio, fazendo das pedras pão, e dos precipícios caminhos. Tomando por fundamento a terceira tentação do demônio, o autor ensina-nos a vencer qualquer tentação usando das mesmas tentações.

55. Se o demônio é tão astuto que até dos nossos remédios faz tentações, por que não sereinos nós tão prudentes, que até das suas tentações façamos remédios? Esta é a conclusão que tiro hoje de toda a história do Evangelho. Quarenta dias havia, e quarenta noites, que jejuava Cristo em um deserto. Sucedeu ao jejum naturalmente a fome, e sobre a fome veio logo a tentação: Si Filius Dei es, dic ut lapides isti panes fiant (Mt. 4,3): Se és Filho de Deus – diz o demônio – manda a estas pedras que se convertam em pães. Vede se inferi bem que dos nossos remédios faz o demônio tentação: com as pedras se defendia das suas tentações S. Jerônimo; os desertos e soledades são as fortalezas dos anacoretas; o jejum de quarenta dias foi uma penitência prodigiosa; procurar de comer aos que hão fome é obra de misericórdia; converter pedras em pão, com uma palavra, é onipotência; ser Filho de Deus, é divindade. Quem cuidara que de tais ingredientes como estes se havia de compor uma tentação? De pedras, de deserto, de jejum, de obra de misericórdia, de onipotência, de divindade? De pedras: lapides isti; de deserto: ductus est Jesus in desertum; de jejum: cum jejunasset; de obra de misericórdia: panes fiant; de onipotência: dic; de divindade: Si Filius Dei es. Se o demônio tenta com as pedras, que fará com condições menos duras? Se tenta com o deserto, que será com o povoado e com a corte? Se tenta com o jejum, que será com o regalo? Se tenta com a obra de misericórdia, que será com a injustiça? Se tenta com a onipotência, que será com a fraqueza? E se até com a divindade tenta, com a humanidade e com a desumanidade, que será?

56. Vencido o demônio nesta primeira tentação, diz o texto que levou a Cristo à Cidade Santa de Jerusalém, e, pondo-o sobre o mais alto do Templo, lhe disse desta maneira: Mitte te deorsum. Scriptum est enim, quia angelis suis Deus maadavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: Deita-te daqui abaixo, porque prometido está na Sagrada Escritura que mandará Deus aos seus anjos te, guardem em todos teus caminhos.2 – Vede outra vez como tornam os remédios a ser tentações, e nesta segunda tentação, ainda com circunstâncias mais notáveis. E quais foram? A Cidade Santa, o Templo de Jerusalém, as Sagradas Escrituras, os Mandamentos de Deus, os Anjos da Guarda, e também o descer para baixo. Podia haver coisas menos ocasionadas para tentações? Pois disto fez o demônio uma tentação. Da Cidade Santa: Assumpsit eum in sanctam civitatem; do templo de Jerusalém: Et statuit eum super pinaculum Templi; da Sagrada Escritura: Scriptum est enim; dos mandamentos de Deus: Deus mandavit de te; dos Anjos da Guarda:Angelis suis ut custodiant te; do descer para baixo: Mitte te deorsum. Se o demônio tenta com a Cidade Santa, que será com a cidade escandalosa? Se tenta com o Templo de Deus, que será com as casas dos ídolos? Se tenta com as Sagradas Escrituras, que será com os livros profanos? Se tenta com os Mandamentos de Deus, que será com as leis do mundo? Se tenta com os Anjos da Guarda, que será com os anjos da perdição? Se tenta finalmente com o descer; que será com o subir?

57. Eis aqui como o demônio, dos remédios faz tentações. Mas como será possível que nós, das tentações, façamos remédios? O demônio, na primeira tentação, pediu a Cristo que fizesse das pedras pão, e na segunda, que fizesse dos precipícios caminhos. Que coisa são as tentações senão pedras e precipícios? Pedras em que tropeçamos, e precipícios donde caímos. Pois como é possível que das pedras em que tropeçamos se faça pão com que nos sustentemos, e dos precipícios donde caímos se façam caminhos por onde subamos? Isto havemos de ver hoje, e hei de ser tão liberal com o demônio, que lhe hei de conceder tudo o que Cristo lhe negou. Que queres demônio? Que te faça das pedras pão? Sou contente. Que queres mais? Que dos precipícios faça caminhos? Também farei isso hoje. O demônio do pão fez pedras, e dos caminhos fez precipícios, porque dos remédios fez tentações. Eu às avessas: das pedras hei de fazer pão, e dos precipícios caminho, porque das tentações hei de fazer remédios.

58. Para reduzir todo este ponto tão grande e tão importante a uma só máxima universal, tomei por fundamento a terceira tentação que propus, que é a maior que o demônio fez hoje a Cristo, e a maior que nunca se fez, nem há de fazer, nem pode fazer no mundo. Vencido primeira e segunda vez o demônio, não desesperou da vitória, porque lhe faltava ainda por correr a terceira lança em que mais confiava. Levou a Cristo ao cume de um monte altíssimo, e, mostrando-lhe dali todos os reinos e monarquias do mundo, com todas suas glórias e grandezas, com todas suas riquezas e delícias, com todas suas pampas e majestades, apontando em roda para todo este mapa universal, tão grande, tão formoso, tão vária, disse assim: Haec omnia tibi dabo, si cadens, adoraveris me: Tudo isto que vês te darei, se com o joelho em terra, me adorares. – Esta foi a última tentação do diabo, e esta foi a terceira vitória de Cristo. As armas com que o Senhor se defendeu, e o remédio que tomou nesta tentação, como nas outras, foram as palavras da Escritura Sagrada: Dominum Deum tuum adorabis, et illi soli servies.3 É a Escritura Sagrada um armazém divino ande se acham todas as armas; é uma oficina medicinal, onde se acham todos os remédios; esta é aquela torre de Davi da qual disse Salomão: Mile clypei pendent ex ea, omnis armatura fortium,4 porque, como comenta S. Gregório: Universa nostra munitia in sacro eloquio continetur.5 Esta é aquela botica universal da qual diz S. Basílio: Ab Scriptura unusquisque tanquam ab officina medicinae appositum suae infirmitati medicamentum invenire poterit.6 E muito antes o tinha dito a Sabedoria: Neque herba, neque malagma sanavit, sed tuus Domine sermo, qui sanat omnia.7 Poderosíssimas armas e eficasíssimos remédios contra as tentações do demônio são as divinas Escrituras. Mas como eu prego para todos, e nem todos podem menear estas armas, nem usar destes remédios, é o meu intento hoje inculcar-vos outras armas mais prontas, e outros remédios mais fáceis, com que todos possais resistir a todas as tentações. Na boca da víbora pôs a natureza a peçonha, e juntamente a triaga. Se quando a semente tentou aos primeiros homens souberam eles usar bem das suas mesmas palavras, não haviam mister outras armas para resistir nem outro remédio para se conservar no paraíso. O mais pronto e mais fácil remédio contra qualquer tentação do demônio é a mesma tentação. A mesma coisa oferecida pelo demônio é tentação; bem considerada por nós, é remédio. Isto hei de pregar hoje.

(mais…)

Anúncios

Read Full Post »

crisma-01-01Já há alguns anos – desde que eu me crismei, em 2002, e tomei consciência da importância capital de servir a Cristo com tudo o que eu tinha e tudo o que eu era – eu trabalho, lá na paróquia, na Pastoral da Crisma, esforçando-me para trazer mais e mais jovens para junto do Crucificado. Temos uma crisma por ano, e uma preparação que dura quase o ano inteiro.crisma-01-02

crisma-03Dos jovens que se inscrevem no início do ano, grande parte deles “fica pelo caminho”. Dos que chegam ao final do ano, uma outra parte é convidada a refazer a preparação no ano seguinte, por não estarem ainda – no nosso entender – preparados para assumir o compromisso da maturidade na Fé. No entanto, dos que efetivamente se crismam – ontem foi a celebração do Sacramento, cujas fotos estão aí -, são tantos os que desaparecem e nós não vemos nunca mais! O que falta aos jovens para que se apaixonem por Cristo Jesus? O que falta a nós, míseros catequistas, para que ajudemos a despertar nos corações dos crismandos sentimentos de verdadeira caridade?

crisma-04crisma-05Sempre que penso nisso, lembro-me do Sermão da Sexagésima que, mutatis mutandis, aplica-se bem à tarefa do catequista. “Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? — Por culpa nossa”. E, depois de percorrer todas as circunstâncias que identifica no pregador – “a pessoa que é, a ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala” -, chega o pe. Vieira à conclusão de que nenhuma destas razões, nem todas elas juntas, podem ser a causa principal do pouco fruto que faz a palavra de Deus. Para o ilustre sacerdote, o principal problema é que não se prega[va], então, a palavra de Deus. É um pouco longo, mas merece transcrição:

O selo na fronte - difundi no mundo o bom odor de Cristo!

O selo na fronte - difundi no mundo o bom odor de Cristo!

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demónio. Tentou o Demónio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore dei. Esta sentença era tirada do capítulo VIII do Deuteronómio. Vendo o Demónio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-o ao Templo, e alegando o lugar do salmo XC, diz-lhe desta maneira: Mille te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal.» De sorte que Cristo defendeu-se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus: pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do templo. O pináculo do templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-o no templo: no deserto, tentou-o com a gula; no monte, tentou-o com a ambição; no templo, tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé.

A tapa na face - maturidade cristã!

A tapa na face - maturidade cristã!

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos? Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me.

O Santissimo Sacrificio da Missa - para que os recém-crismados possam perseverar no caminho estreito que conduz ao Céu.

O Santíssimo Sacrifício da Missa - para que os recém-crismados possam perseverar no caminho estreito que conduz ao Céu.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o templo, ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo, falava o Senhor do templo místico de seu corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah, Senhor, quantos falsos testemunhos vos levantam! Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus!

crisma-02-01crisma-02-02Sim, hoje – como à época do pe. Vieira – faltam pregadores que preguem realmente a palavra de Deus, e faltam também catequistas fiéis à missão que têm de ensinar a Doutrina da Igreja – é por isso que nós não sabemos onde vai parar a multidão de católicos que saem dos batizados, da Primeira Eucaristia e da Crisma. Sejamos fiéis. Não engrossemos as estatísticas dos que levantam falso testemunho a Deus. E que os recém-crismados possam ser verdadeiros soldados de Cristo, dispostos a consumirem as suas vidas no serviço à Igreja de Deus; é o mais sincero desejo que nós, catequistas, nutrimos, e é o melhor pagamento pelo trabalho realizado que nós poderíamos receber.

Read Full Post »

A festa da Imaculada Conceição da Virgem celebra-se no dia 08 de dezembro. Nove meses depois – hoje, dia 08 de setembro -, comemora-se o aniversário de Nossa Senhora, a festa do nascimento da Virgem Maria, a natividade da Mãe de Deus. Que Ela seja em nosso favor!

* * *

SERMÃO DO NASCIMENTO DA VIRGEM MARIA
DEBAIXO DA INVOCAÇÃO DE N. SENHORA DA LUZ,
TÍTULO DA IGREJA E COLÉGIO DA COMPANHIA DE JESUS,
NA CIDADE DE S. LUÍS DO MARANHÃO.
ANO DE 1657

De qua natus est Jesus.

Pe. Antônio Vieira [download aqui de seus sermões]

Celebramos hoje o nascimento; mas que nascimento celebramos? Se o perguntarmos à Igreja, responde que o nascimento de Maria; se consultarmos o Evangelho, lemos nele o nascimento de Jesus: De qua natus est Jesus. Assim temos encontrados nas mesmas palavras que propus, o texto com o mistério, o tema com o sermão, e um nascimento com outro. Se a Igreja celebrara neste dia o nascimento glorioso de Cristo, muito acomodado Evangelho nos mandava ler; mas o dia e o nascimento que festejamos não é o do Filho, é o da Mãe. Pois se ainda hoje nasce a Mãe, como nos mostra já a igreja e o Evangelho não a Mãe, senão o Filho nascido: De qua natus est Jesus? Só no dia de Nossa Senhora da Luz se pudera responder cabalmente a esta dúvida. O sol, se bem advertirdes, tem dois nascimentos: um nascimento com que nasce quando nasce, e outro nascimento com que nasce antes de nascer. Aquela primeira luz da manhã que apaga ou acende as sombras da noite, cuja luz é? É luz do sol. E esse sol então está já nascido? Não e sim. Não, porque  ainda não está nascido em si mesmo. Sim, porque já está nascido na sua luz. De sorte que naturalmente vêem os nossos olhos ao sol duas vezes nascido: nascido quando nasce, e nascido antes de nascer.

Grande prova temos desta filosofia na mesma história evangélica, e é um dos mais aparentes encontros que se acham em toda ela. Partiram as Marias ao sepulcro na manhã do terceiro dia, e referindo o evangelista, S. Marcos a hora a que chegaram, diz assim: Valde mane una subbatorum veniunt ad monumentum orto jam sole: Ao domingo muito de madrugada chegaram ao sepulcro sendo já o sol nascido (Mc. 16,2). Notável dizer! Se era já o sol nascido: Orto jam sole, como era muito de madrugada: Valde mane? E se era muito de madrugada; Valde mane, como era já o sol nascido: Orto jam sole? Tudo era e tudo podia ser, diz Santo Agostinho, porque era o sol nascido antes de nascer. Ora vede. O tempo em que vieram as Marias ao sepulcro era muito de madrugada: Valde mane, diz S. Marcos; Valde diluculo, diz S. Lucas (Lc. 24,2). Era muito de madrugada: Valde mane? Logo já havia alguma luz que isso quer dizer dilúculo. Havia luz? Logo, já o sol estava nascido: Orto jam sole. Provo a conseqüência, porque o sol, como dizíamos, tem dois nascimentos: um nascimento quando vem arraiando aquela primeira luz da manhã a que chamamos aurora; outro nascimento quando o sol descobre, ou acaba de desaparecer em si mesmo. E como o sol não só nasce quando nasce em si mesmo, senão também quando nasce na sua luz, por isso disse o evangelista com toda a verdade, que era de madrugada e que era o sol nascido, Nenhuma destas palavras é minha; todas são da glosa de Lirano seguindo a Santo Agostinho: Valde mane, orto jam soIe: Sol enim potest oriri dupliciter: uno modo perfecte, quando primo egreditur et apparet super terram; alio modo, quando lur ejus incipit apparerere, scilicet in aurora, et sic accipitur hic ortus solis. Não o podia dizer mais em português. De maneira que àquela primeira luz com que se rompem as trevas da noite, chamou S. Marcos nascimento do sol, porque em todo o rigor da verdade evangélica, não só nasce o sol quando nasce em si mesmo, senão quando nasce na sua luz. Um nascimento do sol é quando nasce em si mesmo e aparece sobre a terra: Quando primo egreditur et apparet super terram; o outro nascimento é antes de nascer em si mesmo, quando nasce e aparece a sua luz: Quando lux ejus incipit apparere. É o que estamos vendo neste dia, e o que nos está pregando a Igreja neste Evangelho. O dia mostra-nos nascida a luz, o Evangelho mostra-nos nascido o sol, e tudo é. Não é o dia em que o sol apareceu nascido sobre a terra: Quando primo egreditur et apparet super terram, mas é o dia em que aparece nascido na luz da sua aurora: Quando lux eius incipit apparere, scilicet in aurora: porque, se o sol não está ainda nascido em si mesmo, já está nascido na luz de que há de nascer: De qua natus est Jesus.

Estava dito. Mas porque parecerá novidade dar dois nascimentos e dois dias de nascimentos a Cristo, saibam os curiosos que não é novidade nova senão mui antiga, e uma das mais bem retratadas verdades que o Criador do mundo nos pintou no princípio dele. No primeiro dia do mundo criou Deus a luz, no quarto dia criou o sol. Sobre estes dois dias e estas duas criações há grande batalha entre os doutores, porque se o sol é a fonte da luz, que luz é esta que foi criada antes do sol? Ou é a mesma luz do sol, ou é outra luz diferente? Se é a mesma, por que não foi criada no mesmo dia? E se é diferente, que luz é, ou que luz pode haver diferente da luz do sol? Santo Tomás, e com ele o sentir mais comum dos teólogos, resolve que a luz que Deus criou o primeiro dia foi a mesma luz de que formou o sol ao dia quarto. De modo que em ambos estes dias e em ambas estas criações foi criado o sol. No primeiro dia foi criado o sol informe; no quarto dia foi criado o sol formado. São os termos de que usa Santo Tomás. No primeiro dia foi criado o sol informe, porque foi criado em forma de luz; no quarto dia foi criado o sol formado, porque foi criado em forma de sol. Em conclusão, que entre todas as criaturas só o sol teve dois dias de nascimento: o primeiro dia e o quarto dia. O quarto dia em que nasceu em si mesmo, e o primeiro em que nasceu na sua luz. O quarto dia em que nasceu sol formado, e o primeiro em que nasceu na luz de que se formou. Pode haver propriedade mais própria? Agora pergunto eu, se alguém me não entendeu ainda: quem é este sol duas vezes nascido? E quem é esta luz de que se formou este sol? O sol é Jesus, a luz é Maria, diz Alberto Magno. E não era necessário que ele o dissesse. Assim como o sol nasceu duas vezes, e teve dois dias de nascimento; assim como o sol nasceu uma vez quando nascido e outra antes de nascer; assim como o sol uma vez nasceu em si mesmo, e outra na sua luz; assim, nem mais nem menos, o sol Divino, Cristo, nasceu duas vezes e teve dois dias de nascimento. Um dia em que nasceu em Belém, outro em que nasceu em Nazaré. Um dia em que nasceu quando nascido, que foi em vinte e cinco de dezembro, e outro dia em que nasceu antes de nascer, que foi neste venturoso dia. Um dia em que nasceu de sua Mãe, outro dia em que nasceu com ela. Um dia em que nasceu em si mesmo, outro dia em que nasceu naquela de quem nasceu: De qua natus est Jesus.

[…]

Ora, cristãos, suposto que aquela soberana luz é tão apressada e diligente para nosso remédio, suposto que é tão universal para todos e para tudo, suposto que é tão piedosa e benigna para nos querer fazer bem, suposto que é tão privilegiada e favorecida por graça e benignidade do mesmo sol, metamo-nos todos hoje debaixo das asas desta soberana protetora para que nos faça sombra e nos dê luz, para que nos faça sombra e nos defenda dos raios do Sol de justiça, que tão merecidos temos por nossos pecados, e para que nos dê luz para sair deles, pois é Senhora da Luz. Aquela mulher prodigiosa do Apocalipse, que S. João viu com as asas estendidas, toda a Igreja reconhece que era a Virgem Maria. E nós podemos acrescentar que era a Virgem debaixo do nome e invocação de Senhora da Luz. A mesma luz o dizia e o mostrava, que da peanha até a coroa toda era luzes: a peanha lua, o vestido sol, a coroa estrelas; toda luzes e toda luz. E pois a Senhora da Luz está com as asas abertas; metamo-nos debaixo delas, e muito dentro delas, para que sejamos filhos da luz. Dum lucem habetis, credite in lucem ut filii lucis sitis, diz Cristo (Jo. 12,36). Enquanto se vos oferece a luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Sabeis, cristãos, por que não acabamos de ser filhos da luz? É porque não acabamos de crer na luz. Creiamos na luz, e creiamos que não há maior bem no mundo que a luz, e ajudem-nos a esta fé os nossos mesmos sentidos.

Por que estimam os homens o ouro e a prata, mais que os outros metais? Porque têm alguma coisa de luz. Por que estimam os diamantes e as pedras preciosas mais que as outras pedras? Porque têm alguma coisa de luz. Por que estimam mais as sedas que as lãs? Porque têm alguma coisa de luz. Pela luz avaliam os homens a estimação das coisas, e avaliam bem, porque quanto mais têm de luz, mais têm de perfeição. Vede o que notou Santo Tomás: Neste mundo visível, umas coisas são imperfeitas, outras perfeitas, outras perfeitíssimas; e nota ele com sutileza e advertência angélica, que as perfeitíssimas têm luz, e dão luz; as perfeitas não têm luz mas recebem luz; as imperfeitas nem têm luz, nem a recebem. Os planetas, as estrelas e o elemento do fogo, que são criaturas sublimes e perfeitíssimas, têm luz e dão luz; o elemento do ar e o da água, que são criaturas diáfanas e perfeitas, não têm luz mas recebem luz; a terra e todos os corpos terrestres, que são criaturas imperfeitas e grosseiras, nem têm luz, nem recebem luz, antes a rebatem e deitam de si. Ora, não sejamos terrestres, já que Deus nos deu uma alma celestial; recebamos a luz, amemos a luz, busquemos a luz, e conheçamos que nem temos, nem podemos, nem Deus nos pode dar bem nenhum que seja verdadeiro bem, sem luz. Ouvi umas palavras admiráveis do apóstolo S. Tiago na sua epístola:

Omne datum optim um, et omne donum perfectum de sursum est, descendens a Patre luminum (Tg. 1,17): Toda dádiva boa, e todo dom perfeito descende do Pai dos lumes. Notável dizer! De maneira que quando Deus nos dá um bem que seja verdadeiramente bom, quando Deus nos dá um bem que seja verdadeiramente perfeito, não se chama Deus pai de misericórdias, nem fonte das liberalidades: chama-se pai dos lumes e fonte da luz, porque no lume e na luz, que Deus nos dá com os bens, consiste a bondade e a perfeição deles. Muitos dos que nós chamamos bens de Deus, sem luz são verdadeiramente males, e muitos dos que nós chamamos males, com luz são verdadeiros bens. Os favores sem luz são castigos, e os castigos com luz são favores; as felicidades sem luz são desgraças, e as desgraças com luz são felicidades; as riquezas sem luz são pobreza, e a pobreza com luz são as maiores riquezas; a saúde sem luz é doença, e a doença com luz é saúde. Enfim na luz ou falta de luz consiste todo o bem ou mal desta vida, e todo o da outra. Porque cuidais que foram santos os santos, senão porque tiveram a luz que a nós nos falta? Eles desprezaram o que nós estimamos, eles fugiram do que nós buscamos, eles meteram debaixo dos pés o que nós trazemos sobre a cabeça, porque viam as coisas com diferente luz do que nós as vemos. Por isso Davi em todos os salmos, por isso os profetas em todas suas orações, e a Igreja nas suas, não cessam de pedir a Deus luz e mais luz.

Esse é o dia, cristãos, de despachar estas petições. Peçamos hoje luz para nossas trevas, peçamos luz para nossas escuridades, peçamos luz para nossas cegueiras, luz com que conheçamos a Deus, luz com que conheçamos o mundo, e luz com que nos conheçamos a nós. Abramos as portas à luz para que alumie nossas casas; abramos os olhos à luz, para que alumie nossos corações; abramos os corações à luz, para que more perpetuamente neles. Venhamos, venhamos a buscar luz a esta fonte de luz, e levemos daqui cheias de luz nossas almas. Com esta luz saberemos por onde havemos de ir; com esta luz conheceremos donde nos havemos de guardar; com esta luz, enfim, chegaremos àquela luz onde mora Deus, a que o apóstolo chamou luz inacessível: Qui lucem inhabitat inaccessibilem (I Tim. 6,16), que só por meio da luz que hoje nasce, se pode chegar à vista do sol que dela nasceu: De qua natus est Jesus.

Read Full Post »

Há discussões e discussões. Algumas são intrinsecamente infrutíferas, quando o assunto tratado tem pouca ou nenhuma importância para a salvação das almas ou – pior ainda – quando é-lhes prejudicial. Outras, são extrinsicamente infrutíferas, quando as condições não são propícias, ou quando os interlocutores não estão com as disposições de espírito exigidas para um debate frutuoso, ou quando se observa algum motivo semelhante. Por fim, há outras que são profícuas, que são todas as demais.

Tenho um natural otimismo com relação às discussões. Acredito que um número considerável delas vale a pena – a despeito do pouco fruto que elas pareçam dar – porque acredito que o ser humano tem uma natural sede da Verdade, e que argumentos racionais tendem a atrair a atenção das pessoas. Parece-me que foi Chesterton quem certa vez disse que, se ele tivesse um bom amigo e pudesse conversar com ele todas as noites por longos anos, conseguiria converter este amigo à Fé Católica. Neste aspecto, estou com o insigne escritor inglês.

Primeiro, porque acredito que a Fé Católica é “intrinsecamente convincente”; sendo Ela verdadeira, e possuindo o ser humano um inato desejo de Verdade, a Fé é, em Si, a resposta às aspirações últimas de todas as pessoas. Segundo, porque acredito na capacidade humana de mudar; uma vez que Nosso Senhor Jesus Cristo disse-nos para que pedíssemos, pois receberíamos, e batêssemos, pois abrir-se-nos-iam as portas, acredito piamente que um desejo sincero de encontrar a Deus é capaz de “mover o coração do Altíssimo”, e de provocar mudanças profundas e verdadeiras na visão de mundo das pessoas, quaisquer que sejam elas.

Para Chesterton, todavia, é necessário que o amigo dele seja “muito amigo” e que eles possam conversar por “muitos anos”. Isso acontece porque a Fé, embora seja em Si convincente, não Se apresenta à alma de maneira imediata. Obstáculos podem ser colocados ao esplendor da Verdade Católica. Principalmente dois: as duas pessoas que estão discutindo. E, exatamente por isso, discutir é necessário.

É necessário, porque existem preconceitos da parte de quem ouve que precisam ser quebrados – e quebrar preconceitos leva tempo. É também necessário, porque existem limitações de expressão da parte de quem fala, que precisam ser contornadas da melhor maneira possível – isso também requer tempo. Não acredito muito em “conversões miraculosas” de mudanças radicais de pessoas após pouca conversa e pouca discussão, porque milagres são raros e a minha (parca, reconheço) experiência me ensinou que é muito fácil colocar obstáculos a Fé, e muito difícil contorná-los. O que não significa que eles sejam “incontornáveis”.

Mas não é suficiente somente tempo, se não houver aquela “disposição de ânimo” necessária à assimilação daquilo que é ouvido. Chesterton fala em ser “muito amigo” do interlocutor; isso sem dúvidas seria muito bom, mas parece-me suficiente que você não seja muito inimigo dele. Ter inimizade por um contendor é a maneira mais fácil e eficaz de transformar uma discussão interessante em uma daquelas extrinsicamente estéreis – porque, mesmo que o assunto em si seja nobre e verdadeiro, se o adversário estiver “cego” pela inimizade que devota a você, não adianta de nada. Tempo, pois, para que os preconceitos sejam efetivamente derrubados; amizade (ou pelo menos “não-inimizade”), para que eles possam ser derrubados.

Há uma história atribuída a [se não me falha a memória] Santo Inácio de Loyola, segundo a qual o santo, certa vez, ao encontrar os seus filhos espirituais em silêncio, perguntou-lhes irado por que eles não estavam discutindo. Não sei se é história verídica ou se é anedota, e também vale salientar que a discussão entre a Fé e a incredulidade é de uma espécie diferente daquele na qual se busca aprofundar a Fé, mas o que eu quero reforçar trazendo este episódio à baila é que a discussão é importante, tão importante que não se podem privar dela nem mesmo os que já quebraram os muros iniciais do preconceito e começaram a dar passos em sua caminhada espiritual; a meu ver, nem mesmo estes o podem por três motivos principais.

O primeiro, para que aprendam a discutir. É necessário exprimir com fidelidade o que deve ser expresso, é necessário entender o pensamento do seu interlocutor [sem isso nada funciona], é necessário saber manter a calma e evitar a todo custo angariar inimizades. E discutir é fundamental para a pregação do Evangelho, para a propagação da Fé Católica, para a glória de Deus e para a salvação das almas.

O segundo, para que aprofundem o seu conhecimento; “entender para crer, crer para entender” é o conhecido adágio agostiniano, e é pressuposto da caminhada espiritual. Um corpo que não se desenvolve é um corpo morto e, nos caminhos espirituais, não progredir já é um retrocesso – para usar dois conhecidos ditados que vêm muito a calhar. Sempre há para onde progredir pois, aqui na Terra, é-nos impossível chegar onde não haja mais progresso espiritual possível.

O terceiro – e muitas vezes ignorado – motivo, é para que aprendam a aprender; coloquem-se “do lado de lá” da discussão, e saibam reconhecer os próprios erros e as próprias limitações. Isto é fundamental para o progresso espiritual – afinal, sempre há o que aprender – e é também fundamental para entender melhor a situação daqueles a quem os argumentos são dirigidos; sem isso, não se aprende a discutir.

“Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança”, escreveu o primeiro Papa; mas acrescentou logo em seguida: “mas fazei-o com suavidade e respeito” (1Pd 3, 15). De onde nós temos que, sim, discutir é essencial, mas também é essencial a maneira como discutimos. Se o bate-boca não dá resultado, não pode ser por culpa da Doutrina Católica; por conseguinte, deve ser procurado entre os contendores o culpado. Afinal, como já dizia o pe. António Vieira no Sermão da Sexagésima:

Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? — Por culpa nossa.

Isto pode, mutatis mutandis, ser aplicado a nós também. Aprendamos a discutir, para podermos trabalhar pela maior glória de Deus. E termino com as palavras do mesmo pe. Vieira, com as quais termina o conhecido sermão:

Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.

Amen.

Read Full Post »