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Posts Tagged ‘satanás’

[Neste primeiro Domingo da Quaresma, publico o sermão seguinte do pe. António Vieira, proferido à mesma ocasião, em 1665. Gosto particularmente deste; é muito longo e, para facilitar a navegação pelo blog, vou pôr uma quebra, bastando clicar nela para que se leia a obra na íntegra.

Apenas lembrando, estes e outros sermões do pe. António Vieira estão disponíveis para download aqui.]

SERMÃO DA PRIMEIRA

DOMINGA DA QUARESMA,

PREGADO NA CAPELA REAL,
NO ANO DE 1655.

Ostendit ei omnia regna mundi, et gloriam eorum,
et dixit ei: Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me.
1

§I

Como o demônio dos remédios faz tentações, nós, das tentações, façamos remédio, sendo liberais com o demônio, fazendo das pedras pão, e dos precipícios caminhos. Tomando por fundamento a terceira tentação do demônio, o autor ensina-nos a vencer qualquer tentação usando das mesmas tentações.

55. Se o demônio é tão astuto que até dos nossos remédios faz tentações, por que não sereinos nós tão prudentes, que até das suas tentações façamos remédios? Esta é a conclusão que tiro hoje de toda a história do Evangelho. Quarenta dias havia, e quarenta noites, que jejuava Cristo em um deserto. Sucedeu ao jejum naturalmente a fome, e sobre a fome veio logo a tentação: Si Filius Dei es, dic ut lapides isti panes fiant (Mt. 4,3): Se és Filho de Deus – diz o demônio – manda a estas pedras que se convertam em pães. Vede se inferi bem que dos nossos remédios faz o demônio tentação: com as pedras se defendia das suas tentações S. Jerônimo; os desertos e soledades são as fortalezas dos anacoretas; o jejum de quarenta dias foi uma penitência prodigiosa; procurar de comer aos que hão fome é obra de misericórdia; converter pedras em pão, com uma palavra, é onipotência; ser Filho de Deus, é divindade. Quem cuidara que de tais ingredientes como estes se havia de compor uma tentação? De pedras, de deserto, de jejum, de obra de misericórdia, de onipotência, de divindade? De pedras: lapides isti; de deserto: ductus est Jesus in desertum; de jejum: cum jejunasset; de obra de misericórdia: panes fiant; de onipotência: dic; de divindade: Si Filius Dei es. Se o demônio tenta com as pedras, que fará com condições menos duras? Se tenta com o deserto, que será com o povoado e com a corte? Se tenta com o jejum, que será com o regalo? Se tenta com a obra de misericórdia, que será com a injustiça? Se tenta com a onipotência, que será com a fraqueza? E se até com a divindade tenta, com a humanidade e com a desumanidade, que será?

56. Vencido o demônio nesta primeira tentação, diz o texto que levou a Cristo à Cidade Santa de Jerusalém, e, pondo-o sobre o mais alto do Templo, lhe disse desta maneira: Mitte te deorsum. Scriptum est enim, quia angelis suis Deus maadavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: Deita-te daqui abaixo, porque prometido está na Sagrada Escritura que mandará Deus aos seus anjos te, guardem em todos teus caminhos.2 – Vede outra vez como tornam os remédios a ser tentações, e nesta segunda tentação, ainda com circunstâncias mais notáveis. E quais foram? A Cidade Santa, o Templo de Jerusalém, as Sagradas Escrituras, os Mandamentos de Deus, os Anjos da Guarda, e também o descer para baixo. Podia haver coisas menos ocasionadas para tentações? Pois disto fez o demônio uma tentação. Da Cidade Santa: Assumpsit eum in sanctam civitatem; do templo de Jerusalém: Et statuit eum super pinaculum Templi; da Sagrada Escritura: Scriptum est enim; dos mandamentos de Deus: Deus mandavit de te; dos Anjos da Guarda:Angelis suis ut custodiant te; do descer para baixo: Mitte te deorsum. Se o demônio tenta com a Cidade Santa, que será com a cidade escandalosa? Se tenta com o Templo de Deus, que será com as casas dos ídolos? Se tenta com as Sagradas Escrituras, que será com os livros profanos? Se tenta com os Mandamentos de Deus, que será com as leis do mundo? Se tenta com os Anjos da Guarda, que será com os anjos da perdição? Se tenta finalmente com o descer; que será com o subir?

57. Eis aqui como o demônio, dos remédios faz tentações. Mas como será possível que nós, das tentações, façamos remédios? O demônio, na primeira tentação, pediu a Cristo que fizesse das pedras pão, e na segunda, que fizesse dos precipícios caminhos. Que coisa são as tentações senão pedras e precipícios? Pedras em que tropeçamos, e precipícios donde caímos. Pois como é possível que das pedras em que tropeçamos se faça pão com que nos sustentemos, e dos precipícios donde caímos se façam caminhos por onde subamos? Isto havemos de ver hoje, e hei de ser tão liberal com o demônio, que lhe hei de conceder tudo o que Cristo lhe negou. Que queres demônio? Que te faça das pedras pão? Sou contente. Que queres mais? Que dos precipícios faça caminhos? Também farei isso hoje. O demônio do pão fez pedras, e dos caminhos fez precipícios, porque dos remédios fez tentações. Eu às avessas: das pedras hei de fazer pão, e dos precipícios caminho, porque das tentações hei de fazer remédios.

58. Para reduzir todo este ponto tão grande e tão importante a uma só máxima universal, tomei por fundamento a terceira tentação que propus, que é a maior que o demônio fez hoje a Cristo, e a maior que nunca se fez, nem há de fazer, nem pode fazer no mundo. Vencido primeira e segunda vez o demônio, não desesperou da vitória, porque lhe faltava ainda por correr a terceira lança em que mais confiava. Levou a Cristo ao cume de um monte altíssimo, e, mostrando-lhe dali todos os reinos e monarquias do mundo, com todas suas glórias e grandezas, com todas suas riquezas e delícias, com todas suas pampas e majestades, apontando em roda para todo este mapa universal, tão grande, tão formoso, tão vária, disse assim: Haec omnia tibi dabo, si cadens, adoraveris me: Tudo isto que vês te darei, se com o joelho em terra, me adorares. – Esta foi a última tentação do diabo, e esta foi a terceira vitória de Cristo. As armas com que o Senhor se defendeu, e o remédio que tomou nesta tentação, como nas outras, foram as palavras da Escritura Sagrada: Dominum Deum tuum adorabis, et illi soli servies.3 É a Escritura Sagrada um armazém divino ande se acham todas as armas; é uma oficina medicinal, onde se acham todos os remédios; esta é aquela torre de Davi da qual disse Salomão: Mile clypei pendent ex ea, omnis armatura fortium,4 porque, como comenta S. Gregório: Universa nostra munitia in sacro eloquio continetur.5 Esta é aquela botica universal da qual diz S. Basílio: Ab Scriptura unusquisque tanquam ab officina medicinae appositum suae infirmitati medicamentum invenire poterit.6 E muito antes o tinha dito a Sabedoria: Neque herba, neque malagma sanavit, sed tuus Domine sermo, qui sanat omnia.7 Poderosíssimas armas e eficasíssimos remédios contra as tentações do demônio são as divinas Escrituras. Mas como eu prego para todos, e nem todos podem menear estas armas, nem usar destes remédios, é o meu intento hoje inculcar-vos outras armas mais prontas, e outros remédios mais fáceis, com que todos possais resistir a todas as tentações. Na boca da víbora pôs a natureza a peçonha, e juntamente a triaga. Se quando a semente tentou aos primeiros homens souberam eles usar bem das suas mesmas palavras, não haviam mister outras armas para resistir nem outro remédio para se conservar no paraíso. O mais pronto e mais fácil remédio contra qualquer tentação do demônio é a mesma tentação. A mesma coisa oferecida pelo demônio é tentação; bem considerada por nós, é remédio. Isto hei de pregar hoje.

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